quarta-feira, 28 de junho de 2023

o meu corpo avisa-me sempre quando não está a gostar e cai. não gosta do calor que me esgota nem das insónias malditas e nem do sangue dolcemente saturado de nervos convertidos em acuçar. hoje caiu e está a implorar-me que o embale como se fosse, e é, um bebé. está doentinho.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

 o tempo cada vez galopa mais e mais, corre sem parar, e um dia destes eu vou morrer sem ter conseguido viver naquilo que me é essencial. sou uma vida por ser, talvez não devesse ter nascido, cala-te não digas isso, estou só a pensar, porque se não tivesse nascido era simplesmente matemática, uma hipótese, uma teoria, e isso quer dizer o quê, trenga, quer dizer que nascemos para sermos validados. e talvez eu tenha nascido para ser invalidada. sou um desvio padrão a morrer de calor e de cansaço. 

domingo, 25 de junho de 2023

todas as minhas amigas têm um amor dedicado

nenhumn que eu quisesse

mas têm

eu não, eu só tenho um amor ensaiado, de escrita experimental

nunca me aqueceu esse amor

ingrata que sou, eu sei

abominável musa que rejeita ser

eu quero amor de regueifa com manteiga

e ovos e laranjas

ciciante ao meu ouvido

que me cubra dos mosquitos

e os afaste das minhas orquídeas

e me molhe a boca entre calor

eu quero um amor grande

imenso

enorme

não esse amor pequeno

e sereno

que as cobre a todas

conas vadias que fervilham

e me humilha

eu quero um amor grande

enorme imenso

que só caiba no meu quintal, no meu jardim e no meu pomar

e que juntos sejamos verbo

semear

plantar

regar

crescer

collher

pintar

até ao infinito natural

porque a natureza é perfeita


quinta-feira, 22 de junho de 2023

muito, muito. estou sempre a pensar muito: por que razão não reinventa o 12 de maio de 2021 e diz: agora que já nos vimos, podemos ver-nos muito melhor, gostava muito. também podia ser eu a dizer mas tenho medo de não ser querida por si, de não querer isso e ignorar-me e depois vou sentir-me exactamente assim: culpada por não ter culpa alguma, vou morrer a chorar, ficar ainda com mais seborreia destes nervos de aço que parecem estar de cristal, vou sentir-me ridícula e uma minhoca com o corpo cor de rosa sem ossos e achatado com as tripas a esvaziarem tudo no ar. mas será que pensa que eu sou uma cola, uma mitra, uma ladra ladrona de liberdade, mandona e arruaceira? será que acha que não sei que pode não gostar dos meus olhos ou do meu riso ou dos meus joanetes que agora andam sempre ao léu ou do cheiro dos meus poros ou de me ver comer ou como falo ou como dançam os meus gestos ou do meu braço? será que acha que eu acho que as coisas não são como são? !ai! de mim, olheiras até aos joelhos de sonhos mesmo ruins a dormir, depois acordo a chorar e tenho de me enfrentar triste e por vezes zangada e pequeninha. porque ficamos mesmo pequeninhos, miniaturas de miniaturas de anões, caganitos, quando pensamos que de quem gostamos não gosta de nós.

terça-feira, 20 de junho de 2023

eu tenho medo. nunca pensei em algum dia sentir medo. afinal eu tenho medo de querê-lo tanto e de não ser querida.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

 muito chorei. pensei tanto em escrever-lhe uma carta, contar-lhe ao mimímetro o que está corroer-me os poros, toda eu sou poros de onde sai e entra água, toda eu carrego a leveza de um fardo tão pesado que me esgana os nervos e me acelera o fluxo vermelho. toda eu sou tranquilidade revolta e ciclone de flores e musgo em volta dos poros. do cabelo é onde os poros se agarram mais, tanta água que sai e depois entra e depois ferve. e depois os olhos que se fecham para as gotinhas sairem meiguinhas, os olhos são os poros mais delicados de todos, o mijo é que não, está sempre a querer arredar-se com pressa, sempre a impor-se durante a noite, anda lá levanta-te, já vou, peço-lhe que espere mais um pedacinho mas não adianta. ainda há as águas presas no baixo ventre, essas são as preguiçosas que teimam em não sair. fico a ouvir a roz mas elas acorrentam-se como se estivessem, e estão, a pedir a roz de perto, já não lhes chega a distante. hoje queria muito escrever-lhe uma carta. desisti. também os dedos me bloqueiam. se calhar estou a ficar um pouco mais louca e mais velha, não sei, está tudo difícil.

domingo, 18 de junho de 2023

 passei o dia freneticamente morta. estou cansada de ter ficado esticada depois de bolir em tudo em um ápice logo de manhã tenrinha. estou cansada. hoje morri e estive a viver de cansaço.

sábado, 17 de junho de 2023

continua a navegar na maionese. talvez este seja um caminho que vai dar a nenhures. continua a esconder-me. se calhar é para a outra, ou as outras, não ver. está ancorado a alguém. tem saudades de quem, com certeza, o rejeitou. e eu ando a ridicularizar-me.


 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

 a minha cabeça não me larga e tortura-me de quando em vez. como não torturar se vive na ignorância do sensível? é o inferno de não haver depois. bem visto, é o inferno d'antes.

terça-feira, 13 de junho de 2023

 estou cheiinha de sono. vou adormecer a fazer rolinhos, e puxá-los devagarinho, nos peleiros da minha parrachinha. adoro. !ai! que riso

 e depois fiquei emocionada quando vi as histórias pequeninhas que aqueloutro construiu, histórias da vida real, o menino é mesmo bonito: tem o olhar recto e musical do pai e as pestanas pipilantes da mãe, o menino a aprender a contar o tempo, e as casinhas das doces, vestir o facto para ir às abelhas como se fosse ir à lua, a terra, o tractor como se fosse, e é, o melhor suv do mundo. de maneira que senti orgulho de ver a vida a acontecer-lhe. e chorei mais um pedacinho porque, na realidade, a melhor fantasia é ver a vida a acontecer.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

 fiquei a ouvi-los. foram chegando, eu sou sempre a primeira que abre tudo, abro as manhas das portas e os seguedos das chaves escondidas por detrás das capas de arquilo logo depois de desligar o alarme e meter o cavalete de publicidade por fora e de abrir os estores e as janelas e depois fiquei a ouvi-los, um a um, sobre o fim de semana grande, o que fez com a namorada, onde foram, elas onde estiveram com os maridos, do que falaram. e depois eu fiz de conta que me deu uma cólica e fui a correr para a casa de banho onde fiquei uma boa meia hora à espera que os olhos desinchassem e as bochechas  não ficassem tão manchadas de duas cores. porque ouvir pode fazer correr.

sábado, 10 de junho de 2023

 no filme ele deu um cd à mulher e uma jóia à amante. em circunstâncias normais, o cd seria uma prenda adorável, era da sua cantora preferida, mas a mulher viu a jóia embrulhada antes e pensava que também era para ela. ele não a amava nem a desejava - também não amava a amante mas a porca, porca por aceitar estar na cama com um homem casado, se fosse decente respeitava-se, como estava a dizer, a porca atiçava-lhe o tesão próprio. estava tudo desencontrado. era uma gaveta de coturnos sem pares, ainda por cima rotos. eu resolvia tudo em um ápice: ia tudo para o lixo que era um mimo. 

 durante mais de dois anos não a tocou, sequer olhava para ela, nem um abraço e um beijo para o filho, só tinha silêncio, mistérios e mentiras, pois claro, o interesse dele era outro, mandava-a meter uma cenoura sempre que ela se aproximava, tratava-a como lixo, o interesse dele era outro. e continua a ser. passou meio ano, a minha irmã está a reconstruir a vida sozinha, comprou a casa, educa o menino, e ele continua a não querer a família, é pai levezinho umas horas ao fim de semana, o interesse dele continua a ser outro. o interesse dele é a droga e, com toda a certeza, apanhar no cu. só pode andar a apanhar no cu. porque a vida é de encarar de frente.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

 resultou o que fiz no teu braço, perguntou-me ontem por sms a minha amiga O, não, desta vez até acho que piorou, respondi com a sinceridade que pode ferir, eu sei, mas não há outra maneira de dizer. mas comecemos do início, porque no início é onde se percebe o fim, o fim salvo seja, adoro-a e vou continuar a lá ir. a última vez que as visitei, eu acho que as desgraças que se sucedem na terra delas têm que ver com tudo, a ucrânia está a arder e em dilúvio ao mesmo tempo, como estava a dizer, talvez porque no dia anterior ficaram a saber que na cidade delas há pessoas a dormir nos telhados, encontrei-as a feder, todas cheiravam mal, roupas encardidas, a casa parecia uma pocilga, o sítio onde me sento para almoçar pegajoso, o chão cheiinho de lixo, a casa de banho mais parecia a retrete da gata com tanta areia e cagalhões que povoavam o ar, enfim, e o almoço era uma sobra lá da taberna onde agora a O trabalha como cozinheira de arroz pica no chão. quando me ligou e perguntou, gostas de arroz de cabidela, adoro, disse-lhe eu, não me passava pela cabeça que era uma sobra que congelou depois de tirarem o frango e de lhe adicionarem uma coisa qualquer para o arroz esticar ainda mais. não como isto, desculpa, e salvou-me a melancia que levei no cabaz de compras, levo sempre, que encheu a minha barriga por breves instantes. mas antes, pedi-lhe que me fizesse a massagem na epicondilite, ela faz bem, e achei estranho porque molhou os dedos em água, rodou-os no osso e bufou, o que é isto, pensei na hora, ela hoje está pirada de todo, estão todas, não devia ter cá vindo. de maneira que talvez seja o sofrimento pela ucrânia que as transtornou, aquele caos fedorento meteu-me nojo e agora estou a fazer um esforço para querer lá voltar na próxima semana. vou conseguir.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

 de manhã cedo o livro chegou, a campainha tocou, fui à varanda e pedi ao rapaz que me atirasse a caixinha, assim foi mais rápido para ele e para mim que não tive de vestir alguma coisa por cima da dorminhoca de cetim para ir à porta - e nem ele se aborreceu porque sorriu e piscou-me o olho agradecido. mas ainda só li cerca de quatro mãos cheias de páginas, ando atrofiadita dos olhos, trabalho com umas lâmpadas fortes por cima de mim e longe da janela, de maneira que se não fossem aqueles dias em que ando na rua e fujo, se calhar já estaria meia cegueta, digo eu. quando lá estou e vou lá fora algumas vezes também tenho de ter uma paciência de jó, não há quem passe que não meta conversa comigo a contar-me as arreliações e fico a ouvir até chegar áquele ponto em que tenho mesmo de lhes cortar a letra e dizer agora tenho de subir, desejo-lhe boa sorte. mas como comecei por dizer, já li um pedacinho e estou a gostar bastante - são muitas as palavras velhinhas e sorrio quando, por entre umas e outras, parece que estou a ouvir a dona Natércia a falar. tem razão o meu Viço quando diz que os balastreiros andam na moda do tássebem, quer dizer, ele não diz assim, isto sou eu a traduzir à minha moda. muitas pessoas são estranhamente muito iguais e copiosamente muito imitativas. cansativas, portanto.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

 eu não sei se isto é normal, estou sempre a transpirar da cabeça, fico com o cabelo encharcado. bem sei que não aguento o calor, já durmo com a ventoínha a mim virada desde março, fico a pingar e depois mesmo mesmo cansada. estou farta de calor e de ficar melada, quero fresquinho e estou tramada porque o verão ainda mal começou. o que vale é que o meu leque não se gasta, tão lindo, cor de creme com dourados e hoje comprei uma bolsa de meia lua cheiinha de rosas para arrecadá-lo, não gosto que ande aos tralhos dentro da carteira misturado com creme das mãos, batons labello de melancia e de rosas, desodorizante, escova, saco de compras sos, carregadores, guloseimas sem açúcar, livro, caneta, bloco de notas, óculos, ganchos, elásticos, pensos e pensinhos e mais quinhentas preciosidades que carrego. pareço uma cadela de carga, já tentei mas não consigo sair de casa sem tudo. mas como estava a dizer, estou a pingar, a Valquíria também era assim, sudava pelo cabelo. agora só a vejo com aquele olhar terno, terno e curioso, e a língua de rolinho de fiambre de fora. que saudades da minha Val, com ela eu podia chorar e ela chorava comigo. depois lambia-me o nariz e a boca e os olhos e eu ria-me. e adormeciamos ambas a tocar uma na outra nem que fosse com uma unha. e se uma acordava a outra acordava também. também ela, por vezes, tinha pesadelos, fazia uns sons estranhos e os olhos mexiam muito semi-abertos. então eu sussurrava-lhe está tudo bem, eu estou aqui e o coração batia mais devagarinho, aquele coração que começou a parar antes de ela querer. um dia também será pelo coração que vou morrer, isso é certo, um dia o meu coração vai cansar-se de tanto sangrar e morre, avisa-me antes, digo eu, talvez do género se não páras, páro eu imediatamente - e pára antes de eu parar o que me está a pedir e eu não poderei fazer com que me ouça a dizer aguenta coração.

terça-feira, 6 de junho de 2023

que gostoso: o Feiticeiro a escrever sobre os feiticinhos de outro que dele bebeu, certamente, para fazer esquissos de magia. aguardo que chegue para tirar a prova dos nove porque sei que não serão os feiticinhos tão possantes como os do Feitiçeiro dos feiticeirinhos. ainda me lembro quando chegou o livro e o que senti quando comecei a ver tudo como se estivesse no cinema, o que eu me ri, tantos cantinhos e aquela pequeninha palavra que passei a adorar: catre, a adorar porque a significância meia triste adquiriu o brilhinho do cheiro das ervas e até as maldades eram de fazer cócegas nas linhas de expressão - passou a ser, o leito, uma jangada tosquinha para lá e para cá até na minha boquinha, dava por mim a pensar, porra, desde manhã até que me deito. que feitiço valente, !ai! que contente.

é um feiticeiro, o meu Viço. eu é que, sem saber, sei. e já estou quase a morrer até talvez amanhecer

segunda-feira, 5 de junho de 2023

 fiz o serviço que tinha a fazer e fugi, andei muitos quilómetros porque queria um lugar deserto com flores e mar. encontrei e tirei as melissas e desapertei o botão das calças vermelhas e os colchetes do sutiã também e do carro fiz uma cama com vista para o mar com cor de nevoeiro, o mar estava com cor de nevoeiro, decidindo deixar cair as lágrimas como se fossem parar, e pararam, em um boeiro. estava fresquinho como gosto eu e adormeci com as asas levantadas e as pernas atiradas para a janela e o volante, pé na brisa, eu acho que o céu me disse que estava bonita ou talvez estivesse um pedacinho a delirar antes de me aterrar. depois de ressonar, eu ouvi-me e acordei, senti-me levezinha e com bicos de passarinhos a passearem-se nos lábios como se fosse,  efoi, o sorriso a rasgar. regressei, estive de volta. e ao fim do dia, mesmo a chegar a casa, Olinda, tenho boas notícias, o seu carro chega este mês, já está a caminho. 

agora quero muito sonhar com rele. e com o elefante também; o carro fica para sonhar amanhã ou depois.

 ainda quando sequer fazia ideia de nada havia um encontro que ficou pendente mais de uma década, uma promessa mentirosa que nunca cumpriu. porque sempre que chegou o outono eu avisei que chegou, eu disse estou aqui, não me esqueci. e os anos passaram sem nunca me ter dado qualquer importância. agora está tudo igual. eu continuo sem o encontro como se valesse nada. porque os encontros servem para se fazer luz, não escuridão. talvez eu ainda não tenha percebido bem: não há encontro, nunca haverá, só há jogo, és um jogo. deliberadamente joga e fica feliz, não vejo que fique triste, também só mostra e esconde o que quer, lá está, é um jogo. e onde está aquilo de que sou feita e de que não abdico, sinceridade e transparência? pois, Olinda, não está, nunca esteve, lembro-me de cada conversa que se arrastou durante anos. lembro-me das lágrimas que derramei cada vez que esperava durante horas por uma resposta que não chegava. nunca cheguei a ser, nunca chego. e é isso que não lhe é importante: o sofrimento que me causa não lhe importa, nunca lhe importou. nada mudou. é diversão de luxo do talvez e reticências vazias. do lado de lá da torre de controle. com um jeitinho ainda há-de ter coragem de dizer: inventaste tudo, desilude-te, criaste uma ilusão.

domingo, 4 de junho de 2023

 a máquina de lavar já é velhinha e está a mostrar as suas rugas na roupa, é o que é, antes não precisava de passar a minha roupa e agora quilho-me porque há peças de saem de lá como se pele muito vivida fossem. eu gosto nadinha de passar a ferro mas sei que a tábua é como se fosse uma prancha de surf mas invertida na sua finalidade: enquanto estou horas a surfar na roupa os pensamentos estão, não ausentes, a florescer. de maneira que nascem mil variantes de um só pensamento e eu tenho de os apanhar a todos. continuo sem perceber por que razão toda a gente quer visibilidade, palmas, reconhecimento, exibicionismo na praça pública. e depois, talvez me julguem à sua imagem, enviam-me convites para partilhas de intimidade sexual. então não sabem que para haver intimidade é preciso intimidade e privar essa intimidade? pois devo ser uma et, concluo, porque quero nada disso: quero ficar no meu cantinho e amar e ser amada - amada e fodida - por quem eu amo. é o amor e o sexo juntinhos como fantasia em um só. tão lindo. isso é o que eu queria que fosse. e é só. isso é o combustível e o comburente e a combustão da vida como eu a desejo em estado óptimo e excelente em melhoria contínua. porque tudo o resto se faz à volta daquilo que é, para mim, viver: viver é arrecadar memórias orgânicas de ser e de estar. e eu só quero deixar a minha marca, uma marca óptima, em quem se cruza no meu caminho: essa é a minha contribuição para o mundo, esse é o único poder que tenho ao meu alcance.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

mas por que é que toda a gente só vê o amor como dor? percebo nada, ele só dói se o fizerem doer. é tão simples. só complicam. deliberadamente não causo dor. sim, eu sou a amor, abram alas, invejosas e piolhosas e balastreiras. 

passadeira cor-de rosa com beirinhas douradas e leques gigantes vermelhos com miudezas talhadas que vou a passar, oupas. já está? quem me atrapalhar vai pastar e amochar e amargar, estou já a avisar.