sexta-feira, 29 de junho de 2012

(shuuuuuuuuuuu)

parada na av. da boavista naquela parte em que casa sim casa sim as paredes são altas e tapadas por árvores seculares, uma maravilha, imagino uma história por dentro da casa amarela e por musgos verdes raiada. mas agora não vou, não posso, contar: na história, a madame carlota byrne pediu-me para guardar segredo.



terça-feira, 26 de junho de 2012

prosápiar

prosápia no falar das pudendas de umas e outras é buçal. ou boçal, vogal bem à medida, se a pudenda lhes acerta na boca.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

quando as vaginas batem

é na multidão que tanta vez se nos embacela o silêncio. e o silêncio é sempre uma sinfonia de vozes mudas, de nós para nós, alegro vivo, harmonia. no outro dia o silêncio contou-me que afinal se confirma: há mulheres que possuem o coração, máquina antiga porém com tecnologia de ponta a bombar, na vagina.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

no meu rol não entra

lembro-me de, naquela altura quando o estudei, me orgulhar dele - ouvia e lia com entusiasmo das vicissitudes e glórias da unificação do império acrescido, curiosidade minha nos intervalos do essencial da política externa, das cartas que escrevia à mulher citando Shakespeare e Byron.

agora faço uma comparação entre Bismarck e a mulher mais poderosa do mundo, Angela Merkel, e percebo por que não lhe presto a mesma, nem a mínima, admiração: nunca escreveu cartas de amor.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

o hamburguer e o sexo

são os aditivos de açucar, artificialidade controlada, nas comidas mcdonalds que promovem o vício pela comida rápida. para ela, para elas, os encontros de pasto com ele ora em camas usadas e surdas de motéis ora nos bancos cansados do carro, tempo absolutamente contado, onde ele passeia com a mulher, o que a vicia, as vicia, é o sexo - amarga máscara, doce cobertura, de açucar.

(escolho esta melodia, cozinha em lentidão, para congratular as mãos que cheiram a alho e a cebola)

terça-feira, 19 de junho de 2012

bilhetes sem regresso

desabrocham lentamente como se soltos não estivessem - e não estão.
soltam amarras, gritam abriladas
brindam ao acabar de mãos cheias de nadas
brilham: vestem-se de estrelas airosas, pungentes
que se fodam, pois, as cadentes
mostram alllegria, éles que mostram - tão contentes - os dentes
e aguardam, poesia de cá, os trémulos passos de lá.
bolinhas frágeis de sabão, bilhetes sem regresso
eu vos destituo, para sempre, confesso,
da cadeira barroca, amorfa, padiola
tenho o chaveiro! tenho o chaveiro!
ouve bem, roto, furado, vulpino cativeiro!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

a verdadeira, e única, falência é a da alma - uma contradição no presente negativo: eu não falo.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

súbito

há sempre qualquer coisa de inesperado na certeza - como se nem a certeza tivesse a certeza de estar certa. é como se a certeza nascesse da dúvida que a pariu e a ela sempre voltasse para mamar. e quando crescida, e autónoma, a certeza abana perante a possibilidade de estar - não errada - mesmo certa como se, de repente, um bicho atravessasse a sua rua e parasse: e lá se vai a certeza de que rua estava deserta.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

e não precisa de selo

querido Passos Coelho,

alerto-te, desde já, que escrevo - e escreverei - sempre sem resquícios do novo acordo ortográfico mas com ironia que baste: de outra forma, seria obrigada a substituir querido por cabrão. escrevo-te hoje por resolver fazer um balanço. minto. escrevo-te porque acordei com vontade de purgar o meu descontentamento e não encontro melhor destinatário para a minha carta que não tu - tu és o meu saco de boxe, a minha bacia de limpeza linfática, o meu rolo de papel, preferido; quem melhor do que tu perceberá a minha frustração, o meu lamento e a minha gana de justiça? és, portanto, um privilegiado por também seres um construtor de ideias falido, um mentor do think tank de nicles, um apoiante à ajuda externa, vai-se o azeite e vem-se o vinagre, com picles.

hoje acordei e fui à janela ver se as finanças estavam estabilizadas e apanhei com a cagadela de uma pomba fodida com a vida.

hoje acordei e fui à rua, a correr, ver a alegria dos mais necessitados: fui assaltada por esticão e, de seguida, atropelada por um assaltante de carros em fuga.

hoje acordei e ainda estou de olho no crescimento da economia e do emprego. e sabes que mais? ainda não tomei o pequeno almoço por preguiça e marasmo - a padaria que fica mais perto também já fechou e os bons padeiros devem estar a coçar a pulga no centro de emprego da póvoa de varzim.

mas se eu vivesse em massamá, não escrevia aqui nem acolá: tocava na tua campaínha e, sem esperança que me abrisse a porta a das doce, a ex-bem-bom, tinha uma olho-no olho contigo, conversa de pé de orelha, onde soltava a minha língua fugidia e havias de torcer o rabo à porca. faria, assim, uma espécie de cozido à portuguesa, com ares de selecção, porque afinal o que é nacional é bom, e metia-te um frango dos de verdade por não me falhar a vontade.

com pimentos e sardinhas porque os santos não vacilam,

Olinda

(agora vou ver se chove, que é para colocar bacias a apanhar desperdício de água para as descargas)

terça-feira, 12 de junho de 2012

funiculì funiculà

Strauss pensou tratar-se de folclore para plagiar - como se, mesmo não o sendo, o povo fosse argumento para fraude lícita. como se musicar um vulcão que é o amor, ou o amor que vive num vulcão, fosse coisa vulgacha, daquela coisa de quem conta acrescenta um ponto ou de quem canta seus males espanta. não: celebrar um plano inclinado para chegar ao vulcão é nobre; gritar que o topo gira à volta de alguém é maravilhoso.

escolho esta versão:


sábado, 9 de junho de 2012

o silêncio dos inocentes

e se me perguntarem se gostava agora, depois de tantos outros, de tirar um curso de gestão eu sei bem que respondo que não -  ando a aprender, a meu ritmo e tempo, a fazer gestão do silêncio.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

da putíssima verdade

pois bem: li ontem de relance uma frase bem curta, o que quer dizer que se não fosse de relance de relance igualmente seria, que levanta a ponta do véu sobre a possível homossexualidade de Fernando Pessoa. talvez, penso, isso explique a misoginia e o anti-feminismo, sim, mas não constitui argumento para a sua putíssima, valente, falta de acção, e de erecção, com a Ophélia. ou a sexualidade não é inteira que abrange ao mesmo tempo, e de igual forma, tanto o corpo como a alma? e ele, tão apaixonado que estava, não se fez homem nem dela mulher porque saciava a alma nela e o corpo noutros corpos, ou num só, iguais aos dele - um mundo de pénis e testículos duros obedientes à vontade alheia? fiquei confusa e cada vez mais simpatizo menos com ele. e ainda bem que ela, a Ophélia, casou com outro. vai-se a ver e o flagrante delitro foi mesmo uma mensagem, em imagem, para mostrar - escondendo - o que sempre escondeu. e se assim foi, ela foi um mero objecto de dilúvio do que ele realmente queria ser e não do que na verdade era - posso pensar tudo, este FP tira-me do sério. mas também li uma crónica do Pedro Mexia sobre a verdade em que se não pode amar a verdade se não se a conhece. agora é que acabei de nomear a confusão miss universo.

(como se a beleza fosse universal. Olinda, ordeno, vai dar de comer aos vivos que isso passa)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

amor-próprio

decidiram viver juntos para namorar, na modernidade viver junto é namorar - não no sentido real do que é, seduzir, encantar, viver o amor com paixão, namorar - experimentar o outro com disponibilidade para conhecimento de outros. na realidade, decidiram separar juntos: as contas não são partilhadas, são divididas; as refeições processam-se à medida dos horários e das vontades de cada um; as conversas e os olhares não existem senão para fazerem prevalecer posições do que ficou pré-estabelecido. na cama, dividem o sexo em uma luta desenfreada, sono e riso por partilhar, para ver quem se sacia mais e mais vezes. cada um sovina para umas férias nas maldivas - o mealheiro, porco gigante a barro pintado de rabo retorcido e frágil perante o chão, é o privilegiado da partilha -, as férias são sempre a lua-de-mel dos adultos, ai as férias!, aquele pedaço de realidade fictícia, o pau de cabinda dos amores de mala de dez quilos. depois acabaram-se as férias, o mealheiro já não é um porco mas, souvenir, uma garrafa de formas estranhas com ranhura grossa. os dias recomeçam a nascer como se fossem um ditado detector de erros ortográficos: cada um é apenas responsável por si porque não há forma de saber escrever palavras pelo outro. e o ciclo de morte a dois segue o seu caminho, nadinha sinuoso, tenebroso: finge que nasce, não cresce, não se reproduz e, em processo de decadência contínua, renasce.
chamam-lhe amor. e é - amor próprio.

terça-feira, 5 de junho de 2012

nunca tinha pensado nisto de o coração parar cada vez que há espirro.

(quererá isto dizer que ando a praticar batimentus interruptus)