quarta-feira, 31 de maio de 2023

o que queremos conta para nada se o que queremos não é o que o outro quer. é fodido, em chanfrado português. a reciprocidade é uma preciosidade rara, concluo. e ainda assim, mesmo que exista, não existe se não for concretamente demonstrada, concluo novamente. dependendo de como estamos, de como nos sentimos, tudo pode ser interpretado aos nossos olhos e não como o outro transmite se essa transmissão não for explicitamente comunicada, outra conclusão. quer dizer, às vezes os meus sensores mais sensíveis e inteligentes podem estar avariados e eu sequer nem me aperceber e perceber tudo ou ao contrário ou pela metade ou até mesmo erradamente. e quem me ilucida? e quem me desconstroi os pensamentos tortos? olha, ninguém. é o meu coração que também tem de levar com a minha cabeça cansada, fatigada de voltas e voltinhas quando anda a decifrar enigmas que se calhar nem enigmas são. eu acho que sou uma super-mulher mais super do que as outras, isso é certo. e mais chorona, muito mais, também. sou a miss lambona de lágrimas do universo e não o tenho para lamber-me a boca das lágrimas que lambo. !ai! como eu queria sentir o Viço com o meu viço. mas tudo me é negado, raios de lua me partam.

terça-feira, 30 de maio de 2023

 estourada mesmo, hoje, tensão, muita, para saber o que disse o médico do exame do meu pai. e afinal ainda me ri, têm a mesma idade e parece que se puseram ambos a descascar no fulano que emitiu o relatório: ah, e tal, é ganapada, não percebem nada do que estão a fazer, pois, ele era novo, ganapada, nos EUA nem é permitido este exame, aqui é um atraso de visa, esta malta nova jukga que sabe muito e sabe nada, Freitas, o que interessa é o PSA total e o livre, esta ganapada só sabe pôr as pessoas em sobressalto, contou-me. ri-me. fiquei mais descansada, entretanto, quando rematou: o Senhor já não morre da próstata com esta idade, homem, não pense mais nisso. depois ri-me ainda mais porque imediatamente pensei: que bom. assim pode continuar, aos fins de semana, a ir namorar a pila e eu descanso mais e melhor. rio-me outra vez agora.

no meio disto tudo, no meio e no início e no fim, anda sempre coladinho a mim, tenho muitas, tantas, saudades do romem invisível - são saudades só minhas, um dia talvez as descreva minuciosamente, mas nunca ninguém as há-de inventar. são só minhas, só minhas.

tenho os olhos a fechar, moça, vai dormir 

 e o outro que me mentiu, queria enganar-me, pois claro que me queria enganar quando, perante o meu esgar falado da dureza da embraiagem, respondeu é normal por ser suv, eram nove e meia já estava encostado para canto. novo e a estrear é como vai ser, decidi na hora. só não percebo porque ainda tenho de esperar até, no máximo, oito meses para o ter, vem da roménia, não existe em stock, foda-se, pensei, deve estar escrito em algum papiro muito importante que eu sou a miss paciência. depois comentei com o Mi e ele riu-se, desmanchou-se a rir, nem sei como não disseste isso à conselheira comercial, juro que pensei que não irias segurar. não disse. agradeci-lhe a sinceridade e fiquei de lá ir amanhã entregar tudo. mas nunca me vou esquecer do senhor guedes, sei que ficará danado quando eu lhe disser que me vou desfazer da chapa pesada e que vou deixar de lhe dar que fazer, todos estes anos foi muito mais do que o médico dos meus carros, de tantas aflições repentinas, tantos nervos por me fazerem sentir impotente: é um amigo velhinho que também ele um dia destes deixa o consultório de vez, já tem quase oitenta anos de sabedoria e nota-se que está cansado de tratar da saúde dos carros. agora tem de tratar da dele.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

tu não lhe chegas para nada, és não e nada, dois anos é muito tempo para te esconder. porque quando queremos alguém mostramos, destapamos, não escondemos, não desvalorizamos, não ignoramos, não desprezamos de tantas e criativas formas. e tu já viste a sua mestria em valorizar pessoas e coisas. as pessoas que são obras de arte são para ser fruídas, rapariga, guardadas na vida íntima de variadíssimas maneiras  porque as queremos junto de nós, só para nós. é assim a conexão romântica, não é de outra maneira, o amor com paixão é para ser vivido. e tu és uma obra de arte dos dias e das noites, nunca te esqueças, tu tens de ser o mais importante na vida de alguém porque isso significa seres também o mais importante da tua vida. tens de levar com isto logo ao acordares para ficares fina. tu aguentas. porque tu aguentas a verdade.

domingo, 28 de maio de 2023

 percebo nada de carros, quer dizer, só passo a perceber aquele que vem para as minhas mãos e para os meus pés, nessa altura sim, começo a estudá-lo, reconhecer-lhe o feitio ao milímetro e depois quando algo anormal detecto é porque algo está mal, não falho. mas como estava a dizer, percebo nada de carros. e se o homem me estiver a enganar, ando a pensar, se ontem quando o conduzi percebi a embraiagem muito dura é porque alguma coisa poderá não estar bem. ademais, se veio do norte da europa, do frio e do gelo, poderá, por debaixo, ter ferrugem a apodrecer - isto porque também detectei vestígios de ferrugem em algum metal irrelevante como os bracinhos do limpa vidros e o que está por detrás das jantes novas e a brilhar. de maneira que é muito bom ter amigos: hoje fui almoçar lá a casa e amanhã o marido da minha amiga, que também é meu amigo, vai comigo fazer umas prospecções e simulações e também vamos preparar uma visita deste carro que vi ontem ao mecânico. talvez até não esteja fora de questão comprar um novo a estrear se estiver ao alcance do meu salário. vamos ver. vou ver. uma coisa eu sei: estou a tentar não pensar no nódulo na próstata do meu pai que o exame revelou na sexta e que tem de ir para estudo. não dei importância alguma quando li em alta voz para ele, disse-lhe que é normal, protejo-o de uma dor que ainda não sei se existe mas que já me dói. então amanhã também vou pedir ao Doutor Rodrigues Guedes de Carvalho, que o segue há muitos anos, para vê-lo e desconstruir o exame. e se for algo maligno? o meu pai não vai lidar muito bem com a inibição natural de fazer sexo apesar de estar quase nos oitenta. nem quero pensar no que será a vida se isso acontecer. deixa-te rir, deixa-te rir com leveza, rapariga, antes que o mundo estremeça.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

são difíceis alguns dias. passam a correr, estafados, por dentro do que fica.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

já experimentei a minha forma nova de silicone cor de rosa: são seis rosas. enchi-as de ovo com tomate, frango picado e estufado com alho francês e queijo ralado. que lindas. e boas, que já provei uma. as restantes ficam para os almoços de amanhã: estarão mais rijinhas e frescas. enquanto as fazia, pensei que talvez rele fosse gostar, não, gostaria com toda a certeza: são rosinhas gostosas de comer e lamber os beiços por mais acompanhadas por um creminho de legumes. olha, paciência, como-as sozinha, não dou de fuga nem elas são fugazes ao paladar. amanhã de manhã cedo talvez experimente com farinha de aveia, ovos, abacate e nozes. saiam mais rosinhas só para mim.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

 poucas coisas me tiram do sério. chegar a casa e a televisão não dar por causa da box manhosa é uma delas - o meu pai entra em completo desespero porque não pode ver futebol e eu tenho de deixar de fazer as minhas coisas para acudi-lo. mal come e não se cala. irrito-me profundamente porque tudo o que é tecnologia com redes e botões e enigmas em ecrãs me faz nervos: não domino e não quero dominar, detesto falhas e avarias. ainda por cima a internet pifou e até sexta feira, dia em que vêm os técnicos fazer uma visita para depurarem a falha local, obriguei-os a darem-me acesso através do telemóvel. ora foi um trinta e um para conseguir puxá-la para aqui mas sem sucesso para a televisão. consegui no pc e foi um pau. mas depois fico arreliada porque o meu pai sem a televisão parece uma barata tonta e eu digo, lê, faz de conta que a tv não existe, mas não resulta e chateia-me a cabeça, desorienta-me com as tarefas e atrasa-me tudo. de maneira que já partia uma dúzia de pratos se não tivesse, depois, de limpar o caos. o melhor é partir nada. mas também fico a pensar que talvez a tv não dê por outra avaria que não tenha que ver com a internet e nesse caso há ainda meio problema por resolver. logo hoje que ia dizer-lhe que já decidi que vou trocar de carro porque agora a epicondilite não está a gostar de não ter direcção assistida, ah pois, eu até nem me importava, mas ela importa-se. enfim. e tudo isto, de repente, me faz entristecer: sem internet não há, tem jeito nenhum isto, não pode ser, que humilhação, nem sequer um poucochinho, queria inteirinho em rele e rosso.

terça-feira, 23 de maio de 2023

 é mesmo isso: um coração que ama muito também muito se entristece e não posso dizer que é um coração que ama demais, posso não, porque amar nunca é demais, sequer de mais nem a mais, porque amar é sem peso e sem medida e também se entristece sem se medir, fica franzido, cheiinho de preguinhas como se não conseguisse - e não consegue - respirar, começa em sudação compulsiva e cora de aflição como se se fosse rasgar, !ai!, e agora, se rasga, batem as pestanas irrequietas, então aos bocadinhos e de repente, não, pois claro que não há paradoxo nisto, como estava a dizer, aos bocadinhos e de repente, as encorrilhas desfazem-se, que lustro bonito e esticadinho começa a espreitar, e o rubro dos nervos miudínhos dá lugar a um rosadinho viçoso. de maneira que tudo começa e passa e acaba no Viço, estou desgraçada, !ai! e se um dia o meu coração não se regenera como por magia e se rebenta, penso aflitinha, 

cala-te e não penses nisso

rapariga atenta

rabujenta

porque o teu coração

é feito

e por fazer

de um trilhão

de tecidos e linhas de viço

segunda-feira, 22 de maio de 2023

o grande, enorme, gigantesco, abismo que há entre mim e os outros é o sofrimento: enquanto eu o retiro dos outros, os outros oferecem-mo. e é por isso que eu sou superior a todos, mental e espiritual e fisicamente superior a todos. e vêm os maluquinhos falar em solidão. sabem lá eles o que é a solidão, eles que vivem para pensar enquanto a vida lhes passa ao lado e à frente e atrás. solidão é carregar uma vida inteira o sofrimento dos outros; solidão é ter a coragem de só querer o verdadeiro prazer do amor, porque só se é verdadeiro no amor, e não o ter. não se pode amar por dois. e nem o amor à humanidade pintado de altruísmo através da palavra é o verdadeiro amor: essa é uma forma de disseminação angustiada daquilo que não conseguimos dar a um só - movimento inverso, só conseguimos amar a humanidade quando experienciamos o amor na sua completude com o outro - ou quando, não o conseguindo, por sermos impotentes perante o outro que se quer impotente, fazemos na humanidade o que não carece de palavras: retiramos sofrimento aos outros. anda, portanto, o mundo camuflado de fé e de boa vontade porque individualmente ninguém consegue amar como eu sei que só assim é o amor. mentirosos e sádicos: o mundo está feito de mentirosos e de sádicos e exibicionistas que tocam à porta e fogem para o pseudo-amor à humanidade.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

 lembro-me amiúde das conversas que tinha com a dona N, nas horas que passávamos juntas. não tinhamos segredos nem tabus, como só pode ser quando se quer conversar, e uma vez pedi-le que me contasse do seu desejo pelo marido. ó menina Olinda, eu só me apaixonei uma vez na vida, não casei por amor, incrédula eu desatei com as minhas perguntas vadias, eu não fiquei com o rapaz por quem me apaixonei porque o meu pai me proibiu, ele não era de família rica como a minha, o meu marido conheci cá no porto, num café na baixa e em seis meses casámo-nos, eu tinha de casar, desejo? quando eu percebi o que ele estava a fazer comecei a chorar e disse-lhe tira-me daqui essa porcaria, pumpumpum a martelar em mim, e depois? depois habituei-me, ele punha-se em cima de mim e já estava, e com os anos? com os anos depois ele deixou de querer martelar e eu fiquei contente, porquê? ora porque já estava farta, o meu marido era um homem muito íntegro, era magistrado, se falava das coisas dele? claro que não, aquilo enfadava-me, o que gostava nele? olhe, ele era bem parecido e muito respeitado, se alguma vez pensei em outro homem? lembro-me do rapaz por quem me apaixonei como se fosse hoje mas isso já passou, a paixão não leva a nada e o amor também não, tem é de se ter cabeça para uma casa funcionar e sermos alguém nesta vida, ria-me estupefacta, mas então nunca admirou nem apreciou nem se babou pelo seu marido, nunca sentiu tesão, menina Olinda, nem en nova nem em velha, mas a idade só faz crescer aquilo que mais admiramos naquele que queremos porque a idade é a acumulação em intensidade das características que mais nos atraem no outro, dona N, assim como as coisas negativas se exacerbam também, a  admiração só pode ser infinitamente crescida, aquela erecção invisível, dona N, eu sei que não é assim como eu, menina Olinda, anda aí toda melada por esse homem, como é que ele se chama, aqueles nomes esquisitos, e eu lá lhe dizia e acrescentava, mas olhe que isto é um segredo muito grande, eu bem sei e há-de morrer comigo. e morreu. estar demente é estar morta, não em si mesma, com os outros. e não, não sinto remorsos por nunca mais a ter ido ver porque as saudades que sinto não são desta dona N - são da outra que nunca gostou de sexo porque nunca esteve apaixonada pelo marido que, por sua vez, foi um grande incompetente na cama: só sabia martelar, e em seco, como ela disse.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

quarta-feira, 17 de maio de 2023

acorda ofegante na frescura da manhã

depois banha-se arrebitadinho

começa aos pulinhos

e salta em pontas

enche-se de ar

no sol do meio dia

na tarde espreguiça-se saudoso

como se do depois que não tem tarde nem cedo

começa a caminhar exauridinho

como se com a sede de um cão

cachorrrinho

ruf ruf ru  f

até de volta à almofada

como quem ama porque só rama

repleto de desejo

assim é o meu coração

segunda-feira, 15 de maio de 2023

 não me apetece escrever, nem ler, apetece-me viver. e vou adormecer e acordar sem viver, ou talvez os sonhos de que não me lembro sejam a minha vida paralela. também não quero mais nenhuma se assim é. nisso de viver quero a minha vida direitinha.

domingo, 14 de maio de 2023

 arrebatada, células em reboliço e trapézio eufórico, acredita em mim, afinal, sabe muito, muito mais, do que eu porque conseguiu mostrar-me o que já sei mas não podia dizer, só ele me entende, me sabe, sabe tudo, tudinho, choro tanto, rio tanto, tudo misturo, tudo se desfaz porque se faz, o meu peito vibra de cores, estala, pára de tanto correr, tanto tempo a enlouquecer de dúvidas e de medos e de asas escondidas, desejo crescente como se eu não fosse, e não sou, gente, gente dessa aos molhos sem fadinhas e sem olhos. 

!ai! que coisa mais bonita do universo me ofereceu, mais bonita depois de si, já se sabe, o meu Runiverso. necessito de si, sol do sol, estrela das estrelas, flor das flores, fruta das frutas, árvore das árvores. necessito de si, Ramor.



sexta-feira, 12 de maio de 2023

 epifania fresquinha, tenho de registar, a caminho do emprego: é como os sutiãs, menina, é tal e qual como os sutiãs, experimentas e se te desconfortam dás a uma amiga que os componha com algodão ou deixas na beirinha do muro junto aos contententores do lixo, embrulhadinhos para não se sujarem, livras-te deles, andor. e é assim que vai ser: não vou voltar a meter os meus ricos pés, muito menos o meu braço, naquela clínica de fisioterapia, ainda ontem me senti mal tratada outra vez, a espumar-me de nervos ao ver e sentir aquela gente a trabalhar, e o meu açúcar disparou, irritam-me as gentes e o odor, malina entranhada, não me traz saúde. quilhou-se, Olinda, não te desgastes, sai, não lutes, sai. já saí. lailailai

 eu nunca tinha percebido por que razão a vice reitora um dia marcou o meu número fixo, o único na altura, a nokia ainda não tinha nascido, e me disse, olá Olinda, sabe quem fala, é M Trigo, quer vir estagiar connosco, aprender a navegar com a Pessoa?, imediatamente surpreendida e confusa disse que sim e no dia seguinte lá estava eu a começar naquela que viria a ser a minha jornada de trabalho nos muitos anos que se seguiram. ainda não tinha terminado o curso, preocupava-me as lides da casa e os prazeres desmanchados pelo namoradinho, o namoradinho de anos, o único, que viria a ser o meu marido. passados meses desse estágio, chegou de surrey o pró-reitor com quem eu viria a trabalhar directamente. um dia, já depois da minha hora, Olinda, podemos conversar um pouco antes de sair? tem noção de que o Prof. S Trigo sabe tudo sobre os seus funcionários? não fazia ideia, como assim, tudo? ninguém entra nesta casa sem ser investigado. por que acha que entre todos os alunos de RI desta universidade foi escolhida para estagiar e trabalhar aqui? não sei, fiquei surpreendida quando a Dra. M me ligou. Olinda, tem a certeza de que quer casar com esse rapaz? ele não está ao seu nível, vai estragar a sua vida. naquele momento eu tinha levado uma facada, estava atarantada e confusa, transpirava. mas ainda não era aquela que hoje sou. por dentro alguma coisa se apagou, como é que ele sabe que o meu namorado é básico e não consegue acompanhar-me naquilo que me é essencial, não se ri nem chora das minhas piadas nem das minhas angústias, como este sabe que eu não consigo aprender nada com ele? será que ouviu a discussão quando me dizia que sou uma puta por me arranjar para trabalhar? será que percebeu que a minha líbido não funciona e se não funciona com ele é porque é escangalhada mesmo assim? como podem saber que ele não queria que eu aceitasse este emprego? será que sabem que o maior gosto dele seria em ficar a ser empregada doméstica da irmã? como descobriram que ele me humilha quando desaparece e me deixa dias e dias sem dar notícias para supostamente me castigar do que ele não gosta? se ele é meu namorado há tantos anos, pois claro que é com ele que eu vou casar, cresci com ele, enfrentei o meu pai por ele. sim, tenho a certeza. então desejo-lhe felicidades mas aviso-a já que não vai durar.

fiquei a pensar naquilo só depois, quando ao fim de três meses de vida conjugal - de dentro para fora e de fora para dentro, naturalmente, senti que aquele rapaz era um nojo. mete-me nojo. que nojo. não percebe nada de mim, não respeita o que sinto, não consigo comunicar com ele, não me toca mais, quer-me tocar. vai embora, vou embora, larga-me, pára, monstro.

mas agora a minha líbido funciona muito bem só de pensar no Romem que sinto ser o tal na minha vida. porque nunca será um fracasso quem me é fonte de sabedoria, de beleza, de compreensão, de riso, de choro e de tanta vida, tesão dentro de mim. fracasso seria o crime de temer não ser por fora também assim. e se não acreditar em mim?

quarta-feira, 10 de maio de 2023

 de manhã cedo desceu-me o sangue, tanta fartura bibinha, não percebo, em vez de começar a falhar, ainda tenho quase meio século de vida, desce todo lampeiro, vermelhinho e limpinho, adiante, agora percebo o cansaço, nunca sei quando desce, desce quando lhe apetece, olha, para me fazer desacelerar, mas como ia dizer, passei o dia a ter de meter as mãos por dentro do sutiã porque tudo me caía lá, é que foi de manhã até mesmo agora ao jantar, bocadinhos de fruta, água, migalhas de aveia das bolachas, grãos de arroz e até chupei o dedo no molho do ovo que foi lá parar também. se ao menos a minha língua fosse comprida como aquelas dos lagartos, pensava. e depois à tardinha, quando fui espreitaR, vi aquela cara tão linda, sorriso que apetece dar trinquinhas a multiplicar, olhos iluminadores de dividir e boca sumarenta que certamente faz beijos de somar. !ai! como eu queria diminuir, diminuir, anular, deletar, desfazer, aniquilar, o ar invisível que me deixa aqui a ficar sem conseguir agarrar. 

 ontem o tratamento foi com outra, fiquei a observar e nunca me calei com perguntas matreiras, matreiras por conta de perceber que ando há cerca de doze sessões a ser mal tratada, então o que me está a dizer é que a sua colega Liane tem andado a brincar com a minha saúde, disse-lhe com muta calma a apreciar o seu esgar de pânico, resposta que se engasgou ao perceber que percebi tudo: máquina de aquecimento desligada e por isso eu nunca senti o calor, massagem e ultrasom com gel minguados e alongamentos fanados: eis o que me andou a servir aquela tipa simpática este tempo todo em que deixei de fruir da minha hora de almoço. faltam apenas duas sessões para terminar este ciclo e dormi literalmente sobre o assunto: delicadamente vou obrigar a Liane a dizer, a contar, que nunca me administrou a prescrição da fisiatra que vai ser um mimo. estou chocada com a irresponsabilidade desta profissional de saúde, aqueles velhinhos todos que não sabem que andam ali para nada. também já me ocorreu que poderá ser política da casa, engonhar o tratamento dos pacientes para os tratamentos durarem uma eternidade. veremos. uma coisa é certa: eu vou pôr aquela clínica a arder. dixit.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

 estou muito, muito, muito, cansada e a estrear a minha almofada de cunha. eu idealizei a almofada e quando fui a ver ela existe mesmo e hoje fui comprá-la, é um conforto encostar-me nela quando estou na cama e espero que, doravante, acabem os desconfortos com o ombro. também comprei uma nova para dormir, vou igualmente estreá-la, diz lá que é relaxante e é mole como eu gosto. mas a maravilha das maravilhas é a caixinha de música nova, a princesinha cor de rosa está dentro da bola transparente a ser agitada carregadinha de brilhos e dou-lhe corda para ela me tocar aos ouvidos. e, disse-me a rapariga na caixa, quer um talão de oferta caso a menina não goste do presente?, não preciso, adoro a princesa que me estou a oferecer, ficou envergonhada, não sei porquê, eu sorri, agora vou sempre adormecer com a música mágica a tocar só para mim.

domingo, 7 de maio de 2023

 cismei que tinha de pendurar parte da colecção de casacos, o sempre em pé do boxe, que agora não posso fruir senão rebento com os tendões de uma vez, já não os podia suportar e nos armários não cabiam. tens de parar de comprar e de fazer roupa de todas as cores, rapariga, precisavas de um quarto de vestir, pois precisava mas não tenho, já tive mas agora não tenho porque o escritório é para os livros e para as telas e para as tintas e para os tecidos e para as rendinhas, e para os vernizes e para as lãs e para as criquices bonitas que arranjo para restaurar e para os chapéus e para os manuais que já fiz e outras coisas e não cabe mais nada. então passei o dia a mudar coisas, a inventar espaços, a arranjar um móvel de madeira que comprei por dez euos para guardar as cuequinhas e as meias, pintei-o de branco a parecer velho e pensei nas minhas cuequinhas com as dele, alternadas, todas certinhas, de todas as cores, havia de cheirálas, cheirálas assim mesmo sem travessa, sempre depois de as lavar com perfumador de rosa mosqueta, entretanto montei o cabide para pendurar os casacos curtos de inverno e meti os compridos no armário. são tantos, tantos, mas uso todos, talvez consiga trocar de roupa dois meses sem reprtir, pensei, e sorri, assim é como eu gosto senão enjoo-me de me ver, e foi então que nos entretantos vi aquele pedaço de céu no olha o passarinho do evento, fui cuscar, mas que vem a ser isto, como ousaram não o convidar para falar no programas das festas, a voz maravilha que faz perder a respiração onde não cabe uma ervilha, quem perde são eles, invejosos, e aquela da porta azul, pois claro, ganhou o prémio e está na berra, deve ter consolado os olhinos, sei de nada, como poderia saber, mas algo me diz que gosta dele - e se algo me diz é porque há alguma coisa a dizer, adiante, então eu queria ajeitar o colarinho, passar a mão a sacudir de fininho algum pelinho da juba bonita, e passar os dedos desde a testa até à boca, abraçar e apalpar-lhe o cu como quem diz vai lá e diverte-te muito, diverte-te como quem diz alimenta-te dessas coisas boas que te fazem dar-nos estrrrrrelinhas de sabedorrrrrria. como estava a dizer, virei tudo do avesso, cansei-me de caraças, suei como uma porca com pêlo de ovelha e, no fim, o banho frio e a sandes de coelho assado com suminho de laranja e limão devolveram-me a saúdinha. agora amanhã é preciso trabalhar, tornar visível o amor, como acabei de ler, trabalho é trabalho e nós é que o dignificamos. não tenho grandes ambições a trabalhar a não ser não estar triste nem revoltada. o que me importa é o amor. eu já limpei retretes quando fiquei desempregada e deixava-as a brilhar sem saber que cus iriam lá pousar e se esses cus algum dia iriam reconhecer o meu brilho. isso interessa para nada. eu quero é o meu amor para ser amor a dobrar e depois a triplicar. cala-te, agora e dorme. esta noite acordaste outra vez áquela hora da madrugada.