quinta-feira, 30 de agosto de 2012

a crise é bela

não obstante os efeitos nefastos e tristes da puta da crise, há que reconhecer os custos de oportunidade da sua existência: enquanto caem as vendas de máquinas de lavar louça e roupa, aumenta o tempo passado em em casa - o que significa deixar de fazer outras coisas e passar mais tempo no seio do oásis familiar. ora este barómetro que indica que tanto os que que vivem sozinhos como os que vivem acompanhados estão mais disponíveis para o lar é maravilhoso. vejamos.

tomaste a decisão de viver sozinho mas, rédea curta, não tens guito para comprar os tais electrodomésticos - não só passarás menos tempo a consumir outras coisas fora por teres de fazer as lavagens à la mano como também te inibirás aos convites porque sabes que é a ti que te sai do corpo a pilha de louça para lavar. sim, é verdade, quando se vive sozinho o mais recorrente é levar a roupa a casa dos pais e não vou fazer sugestões a contrariar a infeliz tendência. resultado: poupança;

vives acompanhado(a) e num pequeno apartamento: olha que rica maneira de incentivar a partilha. depois de jantares, visto que almoçarem juntos está difícil, enquanto um lava a louça o outro pode ir esfregando o fogão e os azulejos ao mesmo tempo que conversam sobre o dia e se apalpam. e até podem usar a espuma da louça em momento de poesia. e se o tal apartamento é mesmo pequeno e nem espaço há para um tanquezinho, deixem a roupa de molho na banheira enquanto cozinham e lavam a louça. depois é só passar por água limpa e pendurar, só vale a pena esfregar com afinco se as cuecas tiverem brasão. perdes, talvez, um jogo de futebol na tv ou a novela, sim eu sei, mas ganhas aquela sensação de partilha efectiva - levas para a cama muito mais do que simples sexos de erecção biológica e poupas uns euros valentes em luz;

tens uma família grande, miúdos que chegam - como deve ser - sujos e cheiinhos de fome. bom, aqui já não se aplica o custo de oportunidade dos electrodomésticos de lavar visto que tiveste de abdicar de muita coisa mesmo, inclusivé da televisão, para apostares tudo no crescimento da família: parabéns!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

o povo tem sempre razão

anda meio mundo a foder outro meio, diz o povo. ora aqui está uma excelente forma de expressar o tão moderno, política dos desafectos, sexo em grupo.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

em comum

o que têm em comum homens na lua e vacas no fundo do mar? aparentemente, constituem evidência do avanço da ciência para comprovar que o Homem é o rei, bicho deixado de ser, do universo. mas depois, entre uma e outra descoberta, há disto. ou disto que vem deitar, completamente, por terra a teoria de que não vivemos no planeta dos macacos. 

(desenganem-se. desenganem-se.)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

SOS estilo

li, algures, que na escuridão todos os corpos são iguais. apesar de perceber o contexo, o artigo falava da preferência (pouco atilada) de algumas mulheres pelo escuro na hora da intimidade sexual, não posso concordar. vergonha implicita do seu próprio corpo e absoluta falta de cumplicidade com o homem a quem supostamente se estão a entregar será a minha explicação e depreendo que deixam o acontecimento nas ruas da fantasia, da dele, e daí todos os corpos serem iguais - o homem, efectivamente, estará a possuir aquele corpo que na verdade corresponde a um outro de uma qualquer outra mulher que não aquela mas a que vagueia na sua imaginação. e é só nesta, e apenas nesta, perspectiva que consigo entender o tal chavão de que na escuridão serão todos iguais, os corpos.

na minha verdade a escuridão não é, não pode ser, tão determinantemente comunista - se os olhos abertos são mesmo os guardadores do desejo, a luz do tantrismo que é a intimidade sexual, o toque e o cheiro são assessores inseparáveis. conhecer cada canto do corpo do outro, como se de olhos vendados, é o desafio dos que sentem o sexo como uma arte; captar o cheiro do lugar onde mora o outro, o lugar que é o corpo, é de uma alquimia que distingue o prato gordurento do dia daquela refeição, absolutamente maravilhosa, gourmet. é preciso estilo, para tudo é preciso estilo: até a sexualidade requer estilo.

e o que é, afinal, o estilo - não é ser sobejo apuro no sentir, no pensar, no dizer, e no fazer?

domingo, 26 de agosto de 2012

simfonia

há alguma coisa que eu precise saber mais para que digas sim?
sim, sim.
o quê?
estou a pensar de que forma os meus sim te podem fazer mais feliz.
nesse caso, obrigado, és de uma graciosidade ímpar.
na verdade, estou a pensar em como dizer-te sim, fazer-te mais feliz, possa fazer-me, também a mim, mais feliz.
ah, percebo, graciosidade a dobrar.
sim, é isso: uma simfonia com simtonia lá dentro.

sábado, 25 de agosto de 2012

escargot petit gris

eram sete horas quando vim cheirar o fresco e o silêncio da aurora ao meu terraço e deparei com esta maravilha:

decidi chamar-lhe, a este escargot petit gris, apesar de saber que os caracóis não possuem audição, Harren pela mochila que traz às costas - lembrei-me de um fulano que certa vez me abordou na praia e que nos minutos seguintes à abordagem percebi tratar-se de um saltimbanco, manha a transbordar, de raízes patriotas. também este Harren, naturalmente com os sexos ao lado da boca, corninhos erectos, se movia em lentidão deixando para trás a sua natural viscosidade. aproveitava, penso, a humidade matinal do piso para ir para a parte sul do canteiro, aspiração de férias, talvez, gozo profundo em travessia. vou considerar este episódio tal e qual como quando se apanha um trevo de quatro folhas visto que é muito raro estes Harren se deixarem - vê-los a moverem-se - fotografar durante o dia: são criaturas, pulmão fanado, da noite.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

D. Miguel Januário, O IDIOTA

Funeral de Portugal, curiosidade minha a mil, fui ler para corar de vergonha pela pseudo-arte de pseudo-artistas através de uma pseudo-brincadeira de mau, péssimo, execrável, gosto. brincar à morte do país, do meu país, é dizer que todos os que perderam as casas e os empregos também morreram; enterrá-lo a choro de mulheres e amantes e carpideiras é, por outro lado, assumir que andaram a ser valentemente fodidas e choram, por isso, de saudade; carregar Portugal pelas mãos durante quilómetros a fio é um apelo à resignação do que vai e não volta. (há, depois, aqui, o parêntesis de dizerem que após o funeral espera-se a ressurreição e a reconquista) 

olha que nojo de abordagem em timbre católico - como se católica fosse a encenação de uma morte anunciada na capital europeia da cultura. agora lembrei-me do Woody Allen, satirizar merece inteligência, qu'isto só pode ser uma valente cagadela de boi para acabar de vez com a cultura.


(quem me dera que D. Afonso Henriques entrasse na brincadeira e enrabasse o D. Miguel Januário, O IDIOTA, autor do evento.)




quinta-feira, 23 de agosto de 2012

a histeria de crianças histéricas filhas de pais histéricos

passeio matinal, não tão cedo como o habitual por conta da noite mal dormida devido à sua excessiva agitação, com ela. liberdade depois de atravessar a estrada, sempre. a sua alegria é contagiante, a sua expressividade e doçura - apaixonantes.

quase sempre são os pais que têm medo dos cães. são eles que dizem, olhos mijados, foge, olha o cão. e depois os filhos, como se em espelho, saem exactamente iguais aos pais - os mesmos medos estúpidos estupidamente vividos.

ela passou a largar o charme às ervas e às pedras e aos pássaros. avistou duas crianças com a avó e correu a dar-lhes o bom dia, a beijá-las como se a celebrar o início de mais um sol. gritos, muitos gritos, trânsito parado a perceber a desgraça, olhos aflitos da avó e ouvidos irritados: os meus. preocupação em acalmar as crianças e agarrar a cadela para acabar com o drama da avenida. vontade de gritar ainda mais alto do que as duas crianças defeituosas que mais pareciam cantadeiras minhotas com bagaço na voz.

consegui agarrar a cadela e colocar as mãos das duas criancinhas estúpidas nela; consegui fazê-las sorrir perante a doce e feliz criatura de quatro pernas; consegui, por fim, passar uma descompostura à avó, mãe de um dos pais das crianças, pelo comportamento histérico e anormal das bestinhas, monstrinhos inocentes em crescimento e completamente despreparadas para a ingenuidade e inocência daqueles que são os melhores amigos na vida.

pontos bem colocados nos is do histerismo conjunto, uma verdadeira orgia de sons descontrolados e irritantes, prosseguimos o passeio ainda mais convencidas - eu e ela - de que cada vez mais há pais com cada vez menos capacidades de o serem e que mancham a benção daquela que é a maior responsabilidade da existência: fazer e fazer crescer um filho. é que a forma como reagiram perante uma cadela terá sido tal e qual a forma como os pais terão ejaculado aquando da sua concepção. nem sequer vou descrever onde é que a minha imaginação me leva para não ter de abrir esta minha bocarra nos meus dedos e vesti-los, a eles, aos pais, de vergonha. adiante.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

por vir

a terra onde eu, e os meus manos, fui feita e crescida cheira a leitão e sabe a fins de tarde na varanda com a serra como a grande, imensa, verde testemunha de sonhos - ao contrário do que se diz por aí os sonhos não são cor-de-rosa - a quererem torcer o pepino; sabe a limoeiros corcundas de amarelos filhos e a pernas esfoladas de patins; sabe a travões de bicicleta cansados e a pés negrinhos de alegria.

sabe a saudade sem saudade porque o melhor está sempre por vir.


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

F(e)rida Kahlo

quando os Americanos a rotularam de surrealista, Frida Kahlo respondeu que nunca pintava sonhos mas sempre a sua realidade. deliciosa a definição que usou para surrealismo: não há, de facto, nada melhor do que o sonho, só o sonho é isto, para descrever a ausência de lógica e de arte e de moralidade. a analogia, por outro lado, que de forma implicita fizeram entre a sua vida e a sua arte não podia ser tão desmesuradamente à medida: Frida Kahlo teve, intransmissível e miserável, porque foi a sua, uma vida de sonho.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

chuva

como é mansinha e branda
, goiabada,
certeira e alinhada
, viço em desfolhada,
por vezes.
outras cai sem ser discreta
como se a barafustar de porta aberta
quando é tocada por ele a assobiar
, que o vento gosta de mandar,
e exigente obriga as gentes
a adornar as cabeças, os pés,
e mais tudo o que se quiser
:
ora esbaforida leoa ora tranquila pomba
ela é tal e qual mulher.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

breve cumprimento

depois de pouco mais de três anos cruzei-me, pela primeira vez, com ela na rua. falou-me, mostrou-me a filha e eu sorri. fez questão de me acompanhar ao café e começou a falar sem parar. tentou explicar-me como não tinha sido uma grande cabra comigo e eu tranquilamente ouvi. o ex, aquelas duas letras que significam passado distante e frio e esquecido, tem um peso pouco significativo para algumas pessoas. a amiga que durante tantos anos eu cuidei e mimei e amei via-se agora, ontem, perante mim e confundia perdão com aceitação. quanto mais ela falava menos eu sentia - apoderava-se de mim qualquer coisas que não soube descrever na altura mas que após metade da noite a analisar o sucedido agora sei: compaixão. esqueci todos os pormenores que me levaram a romper com ela, a minha memória é fantástica quando toma decisões, e foquei-me no, eventual, por vir. força o afecto de querer vir a minha casa e eu à dela mesmo naquele instante como se fosse, e é, um ritual de intimidade e confiança - mas não foi. deixei-a entrar no meu oásis como que a buscar definições para o que estava a sentir ou, melhor ainda, para o que eu não estava a sentir. e deixei-a observar cada canto meu, cada poesia do meu viver. depois aceitei, por insistência, ir a casa dela e deixei que me abraçasse - sentir nada foi o máximo que senti. e já em casa, sono afastado, finalmente senti: senti que perdoar assim, naturalmente e com espontaneidade, é bom. é bom eu sentir que aquela ex-amiga continuará a ser uma ex no meu mundo, não a quero de volta à minha vida, aos meus dias. já aconteceu uma outra vez, com outra, e eu senti uma alegria imensa perante a sua vontade de me voltar a ter, desejo reprimido também meu que apenas aguardava sincero arrependimento. mas desta vez, não. desta vez eu escolho, não será ela a escolher em nome do perdão, perdão não é aceitação mas mais um tranquilizante para quem o pede porque quem o dá não o faz em consciência, eu escolho não a querer na minha vida. fui-lhe amiga, mãe, avó - fui tudo o que podia ser até ela, depois de me esfaquear, me morrer. agora será um breve cumprimento sem a devassidão de vidas e a pornografia de evidências que é, para mim, a amizade.

sábado, 11 de agosto de 2012

estou cada vez mais démodè e fico contente por isso

hino à superficialidade.

os peixes dormem?

levantou-se-me esta questão ontem, mesmo antes de me deitar, quando olhei a peixa Clotilde. vim investigar ao de leve quando acordei e não cheguei a uma conclusão séria. também não aprofundei o tema, ainda, foi só uma pesquisa básica: uns dizem que sim e outros que não embora tenham estados de repouso. fiquei com a curiosidade ainda mais aguçada e tomei a decisão de saber ao certo disto, talvez para fazer uma chalaça dedicada à minha Clotilde - a reina da vigília.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

fé electrónica

vou acender duas velinhas para ti, amanhã, quando for à missa - daquelas que se mete a moeda. vou pôr duas de vinte cêntimos, disse-me ela. eu agradeci, fé é fé, mas ri e pensei em acender outras duas para que o sistema electrónico da caixa das esmolas nunca entre, fios descarnados possíveis, em curto circuitar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

despersonalidades

há personalidades que simplesmente mudam de cor consoante o espaço onde permanecem. na verdade são personalidades cuja característica principal é, precisamente, a não permanência. à semelhança do camaleão, mesclam-se do que está em redor: no início e no meio e no fim são, isso sim, não ser.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

breve história de vida

o sonho dele era o canto lírico. um dia cortaram-lhe os cantos e, à semelhança das unhas, encravaram-lhe a vida.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

obituário

mulher.
mulher de letras.
mulher sem muita letra.
mulher de levar à letra.
mulher de palavras.
mulher de palavra.
mulher.

domingo, 5 de agosto de 2012

chover, comunicar

há macacos tímidos, na Birmânia e ao que parece também na China, que espirram quando chove e para encontrá-los basta seguir o som dos espirros. uma maravilha. a parte de ficção seria a da história do primeiro espirro depois de anos de silêncio ao sol. uma aldeia de espirracos onde nunca chovia quando o sol, aliado do marasmo e dos olhos e das bocas cerradas, um dia se fez tapar por nuvens roliças e húmidas dispostas a uma revolução sem igual. e choveu. e o primeiro espirro, imitado por todos os habitantes da aldeia, os espirracos a partir daí, vingança do sol ao silêncio, tornou-se num marco da comunicação universal.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

gargalhada

quando o meu pai vem almoçar comigo traz sempre broa. gosta, sabe-lhe bem. e a mim sabe-me a alegria, perante o meu comentário, a sua gargalhada: ela é broa comómilho.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

câmara lenta

se a pressa é a sola dos sapatos da modernidade - a lentidão, ai! como eu adoro a lentidão!, é a planta do pé, não de aquiles porque esse era dado aos calcanhares, daqueles que sabem como manter o bom e extinguir o mau. abrandar o ritmo seja do que for, orgânico ou mental ou espiritual, só pode fazer crescer ou fazer desaparecer - tudo se apanha, tudo se consciencializa e tudo se transforma. e a espontaneidade em câmara lenta é mais bonita ainda, não há paradoxo algum: nunca se atrasa a uma hora que não está marcada mesmo não usando relógio. já assim era, a bonita espontaneidade, mas em lentidão não precisa sequer fugir do trânsito porque já não há trânsito (o trânsito é uma invenção da pressa). afinal, começa a ser mais fácil e simples viver.

vamos celebrar.