quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

C.Ronaldo: técnico de ac.

por insistência andei, um dia destes, de metro pela primeira vez e confirma-se: o ar sem renovação, sufocantemente respirado e  partilhado por que dezenas de outras pessoas, muitíssimo condicionado é de uma porcaria pegada que não tenciono repetir. que nojo. arrisco dizer que o ar está para o metro como o outro, o do ai se te pego, ai ai se te pego, está para a música. depois, no fim, vai-se a ver e o C. Ronaldo não passa de um técnico de ac. 

( uma corrente de ar, tão bom)

janelas. dunas. janelas-dunas. o mundo precisa - não de casulos de bactérias, ora em silêncio ora sonoras - de arejamento natural e ventilação constante.




terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

o meu gorilinha amoroso

não é agradável sermos perseguidos por alguém, por um homem, num carro qualquer, durante quilometros a fio. sinais de luzes, sinais de mãos, sinais de boca - tudo sinais que muito mais do que nos levarem ao medo, levam-nos à vontade descontrolada de parar o carro e sair e usar e inaugurar, finalmente, o bastão de madeira maciço pousado mesmo ali ao lado do travão de mão. controlar a vontade, cantar para espantar o medo e prosseguir até à casa de uma amiga. estacionar à porta e sermos confrontados com o perseguidor cuja teimosia prevalece. algumas palavras furiosas e uma simulação de ligação à polícia fazem com que se afaste. mas chegar a casa e, sem contar, ver o king kong a dançar no carnaval do rio faz milagres: o milagre do gorila, tão lindo, amoroso, num esgar contagiante de contentamento e alegria. viva o king kong qu'adoro!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

e se...

a academia não tivesse decidido, em 1950, que os óscares não podem ser vendidos a terceiros, estou certa que os europeus, em assaltos, lhes chamavam um figo. talvez por essa razão a designação viesse a ser alterada para cerimónia dos figos e um novo título sugerido para melhor película de anos vindouros pudesse vir a ser "e tudo os figos levaram". também o peso e altura passariam a ser inferiores: um quilo em vez de quatro para dez cm dos trinta e três actuais. o figo leve e dourado passaria a valer, não duzentos dólares, vinte euricos. e quem reunisse uma dezena deles poderia dizer que tem uma cesta de figos em casa. 

(que maravilha de alusão à fruta que é, mesmo ali debaixo da árvore, de arrancar, abrir e lamber.)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

da completude

“O fim da arte superior é libertar” ? sou eu quem coloca a interrogação ao dito de Pessoa, tema escolhido para dar o mote da segunda mesa do Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim. faço um balanço do que foi dito e reconheço a superioridade da ideia de que não importa se a arte é uma forma de libertação mas, antes, uma forma de liberdade. é que este segundo apontamento é bem mais abrangente e, englobando necessariamente o primeiro, completo. não tivesse eu o vício, talvez estranho e dificilmente feliz, da completude.

visão com falta de ver

 o que têm em comum estes óculos e estes é, precisamente, uma visão de futilidade necessária.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ao fundo achados

o alto minho é o local ideal para fazer da existência das cabras e das vacas um negócio, não para a indústria das carnes ou dos lacticínios ou das peles, a fundo perdido. nem sei bem se esta designação, tão certeira, ainda se utiliza. talvez não porque as gentes não gostam de ver a descoberto aquilo que realmente são. e são fundos, de facto, os que são aprovados para pastos perdidos - pastos que não tendo outro objectivo que não a sussessiva capitalização de capital sem sequer haver um mísero investimento em vedações e limitação do espaço - sim, tudo tem de ter um espaço para respirar se entendermos respirar como evolução e não mero movimento de manutenção - para o efeito. entristeceme, e escrevo tudo junto à espanhola para ter mais força, a ganância e o viver de bolso. e se eu pudesse, passava a seguinte mensagem a cada vaca e a cada cabra dos montes: coices e cornadas sem parar nas vidas de bolso até perceberem que o mundo precisa, ao fundo achados, de vidas nas mãos e nos pés, dos corações.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

kizombar

as orelhas da branca de neve

excelente post do Zé António. sabe-se que os contos de fadas têm profundas interpretações freudianas e junguianas para explicar o inconsciente colectivo. e o pormenor da orelha, que tão bem nota, pode ser explicado como uma sátira: a madrasta, uma bruxa perdida, por estar presa à vaidade, anda na busca da beleza eterna, enganada quanto à natureza do “Elixir da Longa Vida”. pode ser que seja uma espécie de sátira invertida que lhe interessa, à orelhuda, conservar. digo eu.

rei e rainha

de tempos a tempos recortado, mais e mais, segue o rio para o mar - mas é na foz, entre carícias e deleite, que os fluidos molhados de fundem: até poderia ser gay, o douro, beleza de ser igualmente garantida, mas é dela, da foz, rei: e faz dela a sua rainha.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

empanadilhas de atum em sorrisos: já está.

para fazer a massa colocar a farinha e a manteiga, previamente cortada, aos cubinhos ou noutra forma mais gira ou mais prática, numa tigela; misturar com a ponta dos dedos até a massa se misturar; juntar os ovos e a água aos poucos e amassar até ficar em bola. deixar a reservar no frigorífico, por trinta minutos, dentro de uma tigela polvilhada de farinha.

enquanto se aguarda o sono da massa, refoga-se o atum e as delícias com cebola, alho, tomate, salsa e delícias do mar - tudo bem temperadinho para servir de recheio.
nos entretantos, retira-se o tabuleiro do forno e polvilha-se com farinha enquanto o forno vai aquecendo a 180ºC - ou se fôr numa forma de silicone, melhor, não é preciso polvilhar (o silicone não arde porque se ardesse havia muita mama a arder).

finalmente, estende-se a massa com o auxílio de um rolo na bancada polvilhada de farinha e cortam-se tiras compridas (ou discos caso prefiram em forma de rissóis). depois é só dividir o recheio de atum e delícias pelas tiras de massa e pincelar as bordas com leite e fechar em rectangulos, pressionando-as com os dentes de um garfo para unir e decorar.

colocar as empanadilhas no tabuleiro, pincelar com a gema batida, e levar ao forno por quarenta minutos, a 180ºC. depois, é só deixar arrefecer para os sorrisos darem uma trinca.

Ingredientes:


Massa:
700 g de farinha de trigo
250 g de manteiga (ou de margarina vegetal)
2 ovos
1 dl de água
2 colheres (sopa) de leite
1 gema
farinha q.b.

Recheio:
4 latinhas de atum ao natural (aproximadamete 500 g)
delícias a gosto
4 tomates maduros
1 cebola pequena picada
2 dentes de alho picados
salsa picada q.b.
sal & pimenta
azeite

que vergonha de justiça

um sem abrigo é condenado à prisão por ter roubado um polvo e um champô. e o avô que matou o pai da neta, arma numa mão e criança na outra, está a aguardar julgamento em casa e a viver com a neta que por sua vez vive com o assassino do pai. e os avós paternos da neta não a vêem desde que o avô materno matou o seu filho, pai da neta. ao avô assassino calhou-lhe o brinde do bolo-rei: matou o genro que odiava e ainda ficou a viver com a sua filha. e agora, o avô assassino está em assassinato contínuo e diário da memória do pai da neta por ser ele a figura paterna que vive com ela. que vergonha que eu sinto por não poder fazer nada.

há que tempos não ouvia isto. de acordo com a Curadoria do JPC não me parece que seja uma colagem nem paródia nem pastiche videomusical. não sei, mas gosto: sabe à época da novidade.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

de repente: aceitar.

as decisões difíceis tomam-se num repente, o que é importante acontece sempre de repente, quando aceitamos que Ele, o gestor da energia que nos faz existir (e iludir que afinal somos nós que nos fazemos Deuses), não nos dá o que queremos mas o que precisamos. e a fé é continuarmos a acreditar que o que precisamos há-de ser como nós queremos.

mulheres & flatos

no delito de opinião, não me apetece colocar link, num post sobre uma declaração do cardeal a favor do aumento do tempo para as mulheres estarem com os seus filhos, quem quiser que procure, parece que acham graça ao meu estilo consciente do que é ser mulher na sua completude. ao riso das senhoras que querem ter pilas, pedi para acrescentarem flatos. e, agora, que se governem.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

da hermenêutica do riso e da vontade

suponho que não terei aquilo que quero, em relação a um assunto, por ter mandado o seguinte recado, por telefone, ao intermediário do negócio: faça assim - se amanhã o senhor tornar a desmarcar a visita diga-lhe, por favor, que se suicide. a questão está na interpretação do riso que não segurei quando me apercebi do que disse em parceria com o riso do intermediário que ouviu o que eu disse. como há dementes em todo o lado, talvez o intermediário dê o recado de forma literal. a minha dúvida não está na eventual consumação literal do recado, até porque acabava-se mesmo a possibilidade daquilo que eu quero, mas no desvio ao negócio pela hermenêutica maliciosa ser exactamente proporcional à minha vontade explicita no recado. só aguardando e, nos entretantos, rir-me, à fartazana, de mim.

cordas

dos telhados vê-se a luz: as pontes são cordas, esticadas, que unem dois pontos de abrigo, que aos olhos dos homens seduz.

filhos de mera ejaculação












e quando consegui recuperá-la, finalmente, foi para o lixo.

desde os tempos de andar na Carlos Cal Brandão que me apaixonei pela música do Bryan Ferry e dos Roxy Music - tudo era pretexto para ouvir a cassete que a minha irmã uma vez me ofereceu. o efeito electrizante, apenas comparável a duas ou três coisas que não vêm ao caso, que me provocava - e provoca em outro formato, agora - acompanhou-me sempre e quando comecei a conduzir aquela cassete rodava tanto, tanto, que chegou um dia, talvez há sete anos, que ficou encravada, metida lá para o fundo do buraco do rádio, e lá ficou. confesso que também nunca forcei a retirada - bastava uma martelada bem dada -, talvez pela certeza de que a fita, cansada, recusava-se a correr. e ontem, não sei bem porquê, decidi carregar bem fundo o botão e ela sem qualquer esforço saiu. e, tal como sempre pensei, não toca. mas veio lembrar-me, a cassete que foi para o lixo, de que é preciso ouvir, continuar a ouvir, sempre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

conversa da água da torneira

ele: estás a dar outra calinada - a água só ferve a 100º.
ela: anda comer.
ele: já liguei dezassete vezes e ainda não consegui falar - estou a trabalhar!
ela: viste o caso daquele que afinal é pai da neta?
eu, em excurso mudo: (não há água que vos una quanto mais que se ferva - vão-se ferver)

possibilidade

acordar com a possibilidade de trocar um t2 por um t0, sem tristeza e sem vontade de chorar, não é bom: é óptimo indício de prosperidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

é de pequeninos que se castram os pepinos podres

nunca tendo apanhado uma simples(?) reguada na escola, causa-me fervura no sangue quando ouço crianças dizerem que apanharam beliscões nos braços, coques na cabeça, puxões nas orelhas ou estaladas no rosto. mas mais fervura ainda causa-me a indiferença dos pais perante estes abusos. tinha eu doze ou treze anos quando o meu irmão mais novo, na primeira classe, chegou a casa com as orelhas roxas de tanto que foram puxadas pelo professor Costa. e foi nesse, e a partir desse, dia que a tal fervura despoletou. desci a calçada, árvores arrepiadas ao verem-me passar, entrei na sala de aula onde ele ainda estava a arrumar a mala e disse: sou irmã dele e vim dizer-lhe que foi a primeira e última vez que lhe tocou, com maldade ou intenção de castigo, no corpo ou na alma. na verdade, nunca mais o meu irmão se queixou nem apareceu com resquícios de abuso de autoridade. e ainda hoje, se o professor Costa se cruzar comigo lembra-se de mim e das minhas palavras. talvez seja mesmo de pequeninos que se castram os pepinos podres; talvez nesse dia ele tenha aprendido mais sobre ensinar do que durante todos os anos de professorado. e o meu irmão aprendeu a dizer-me sempre quando se sentia infeliz - pela garantia de que nunca lhe mostraria indiferença.

desde a folha até à semente



espetada de flores, branco de sabores, sem estar reservada ao jantar: flores assim abraçadas, juntas para saciar, só podem ser agres e doces de sempre: petisco de vida desde a folha até à semente.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

demagogia de pseudo-macho

deparei-me com um homem daqueles que só aparecem nos filmes de humor: dentes cerrados e olhos, por detrás dos vidros, que fixam sem piscar. o assentir com a cabeça é constante e a palavra obrigado, muito obrigado, sai-lhe cinco vezes a cada dez segundos. indica-me a saída e quando eu já me dava por aliviada por sair dali, ei-lo. sem ser como uma sombra - porque as sombras mostram-se e são grandes e escuras e bem visíveis aos olhos -, como um pássaro que por cima acompanha sem fazer barulho e sem se fazer notar, na suas palavras preferidas e, por iteração, irritantes: muito, obrigado, muito obrigado. 

fiquei a pensar, entretanto, e não costumo enganar-me, que, no meio dos outros quatro, aquele tipo de homens simpáticos mas machistas em que se nota que dizem uma coisa quando estão a pensar numa outra completamente diferente só para conseguirem parecer que valorizam e que estão de acordo com a interlocutora fêmea e levarem a cabo o projecto que de outra forma não há, o ajeitadinho-sossegadinho-obrigadinho destacado para me acompanhar durante um dia inteiro é o único que está a ser sincero, por mais que a expressão corporal dele me irrite, e talvez agradeça tanto apenas por sentir mesmo e muita vontade: afinal de contas, e pelo menos durante um dia inteiro, vai livrar-se dos outros marretas mentirosos e machos à pressão, em demagogia, que não acham piada mudarem de opinião - ainda que buriladamente forçada - à custa de argumentos de uma fêmea. são, bem visto, uns vendidos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

psicologia nos recibos

os recibos verdes electrónicos foram criados para, supostamente, aumentar a rapidez e diminuir a burocracia e o papel. mas se as entidades, além do envio por email, exigirem a assinatura na respectiva impressão isso é o quê - reforço positivo ao prestador do serviço? cambada de ignorantes.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

não à anulação dos peidos& companhia

o marido de uma amiga, um quase amigo apenas por arrastamento por casamento, diz que são as pequenas coisas - como ressonar e peidar - que acabam com as relações. bem visto, e pensando um pouco sobre o assunto, não será de todo mentira: é que tenho a impressão de que se as gentes se vissem ao espelho cada vez que comem ou cantam ou sexam ou libertam a biologia, fugiam de si. ou seja, as nulidades que supostamente acabam com as relações reflectem a nulidade de quem as percebe como motivo para acabar relações - a nulidade que são por não se permitirem ser com espontaneidade e, obviamente, a da não permissividade do ser do outro.

casa-ninho

tenho quatro piriquitos a viver num prédio de cinco andares, em open-space, o que significa que lhes sobra uma assoalhada para vingarem as tolices que lhes passa pela cabeça. e mal a luz do dia rompe de mansinho eles fazem questão de me dizer, da sala onde quentinhos adormecem,: queremos ir para o terraço menina. eu eu arranjo um pretexto qualquer, o mais frequente é pensar que tenho uma bexiga sôfrega por esvaziar, para dar-lhes luz. há já algum tempo que verificava penas adicionais no chão e algum frenesim na terra dos canteiros mas sempre atirei com as culpas para a dona, por direito adquirido por antiguidade e por paixão, da maior fatia do meu coração - a cadela -, visto que a peixa Clotilde em águas compenetrada estaria fora de questão, e hoje constato a injustiça que tenho vindo a cometer: são os resquícios de comida e da harmonia que eles deixam durante um dia inteiro que atraem as pombas para o terraço. e são também elas que com meiguice descontrolada remexem a terra. só não me parece pertinente que comam e caguem logo de seguida, não por ter de limpar, por ser sabido que as suas secreções são pouco ou nada saudáveis a narizes curiosos como o da Dona Cadela Valquíria. posto isto, não posso deixar de dizer em contentamento desmedido que a minha casa é um verdadeiro ninho de amor incondicional.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

o mantra do bombo

não sei bem por que raios e coriscos quando se toca bombo, mas ainda vou investigar, o mantra de sons é sempre o mesmo: pom, pom, pom. pom, pom, pompom. pom, pom, pom. pom, pom, pompom. e todos os cães ladram, e todos os pássaros resmungam e os carros buzinam e as gentes aglomeram-se para ouvi-lo tocar. e quem, finalmente, dorme - acorda. talvez tenha algum significado especial o pom, pom, pom. pom, pom, pompom que eu (ainda) desconheço; talvez seja uma espécie de flauta, sem ser flauta, mágica que ao invés de encantar, porque o encantamento não traz desassossego à natureza - só à alma-, desencanta. de uma coisa eu já sei: a expressão corporal de quem carrega um bombo, que é ao peito, é de desespero e de sacrifício - tal e qual a expressão de quem carrega um pom, pom, pom. pom, pom, pompom nos ouvidos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

telefones

tenho saudades daqueles telefones fixos antigos que quando tocavam era por coisa importante, como se fossem sinos. conheci um que era dourado, todo rendilhado, e que era preciso mais jeito do que força para discar os números. depois era um preto - adorava passar-lhe uma camurça com ajax para virar espelho. esses, sim, eram verdadeiros telefones, com uma presença forte e a ocupar espaço. o que é bom ocupa espaço.


monólogo das febres

não sei bem se a gripe traz efeitos não previstos nas outras pessoas mas em mim isto vira tudo: não é suposto apanhar frio mas não consigo estar de janelas fechadas; é suposto ficar de cama mas a cama durante o dia sufoca-me; parece que dá sono pelo cansaço dos olhos mas a mim troca-me as horas: às quatro da manhã estou a tomar o pequeno almoço, às sete ou oito estou a levantar-me para depois às onze almoçar e às vinte estar a dormir. mais hora menos hora é assim - um corpo que se arrasta a tresandar a vicks, aquela pomada em boião que cheira a mentol potente e se espalha nas fossas e no peito. bem sei que todos sabem o que é mas tive mesmo de fazer uma descrição para valorizar este cheiro, este pingo, esta respiração cansada e estes espirros tão fortes que de cada vez que se soltam, estremeço e mijo-me toda. até pode parecer brejeiro mas é a mais pura urina. quero dizer, a mais pura verdade: estou num canho. talvez agrave a descrição se disser que não caía numa cama há anos. suponho que deva ter sido do entra e sai em locais de ar condicionado na semana que passsou. rabugenta, sim, estou, porque trabalhar não deveria dar para ficar doente nem piegas nem preguiçosa. deixa-me mas é estar calada, por recear que o outro ouça, o primeiro, porquê?, se a palavra do homem vale bem menos do que a minha que estou a falar sozinha? homessa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

cem glórias

como se na seda encorrilhada passasse um ferro sem vapor, escondido o vigor, paciente no seu jeito de ser, ouvem-se do silêncio histórias, dias contados a minutos de glórias - cem glórias, a morrer de riso, de rir a viver.

estou sim? só há destas? está bem, calham-me a mim.

tenho a impressão que posso assemelhar mulheres-mães de fresco a homens-militares de fresco, com as primeiras tenho pleno conhecimento presente de causa e com os segundos já tive, no passado, altura da obrigatoriedade da tropa para todos os amigos rapazes: tantos umas como outros só sabem falar do mesmo, qualquer assunto que se puxe vai dar à mesma estrada. e todo o interesse que o assunto em destaque, tanto numas como noutros, possa ter - é absorvido pelo desinteresse que suscita o tal interesse saturado. a análise que faço é tratar-se de muita insegurança e medo de falhar, como se pensar e fazer e sentir várias coisas ao mesmo tempo seja missão impossível e incontornável. (eu) olha, a tarifa bi-horária anda a causar polémica - parece tratar-se de fraude porque não está a ser praticada, estou a dizer-te porque sei que tens. (ela) ai é? por acaso ainda não olhei para a factura. o Gonçalinho quando chegou a casa esteve uma hora a comer papa, vinha com fome. (eu) então, chegaste a ver adjudicada a proposta que tanto querias? (ela) ainda não, esta noite o Gonçalinho chorou e tive de o trazer para a minha cama; tem estado muito frio mas eu não gosto de lhe vestir meia-calça. tenho de desligar, está na hora da papa. e passam-se quinze dias até haver novo telefonema. piadar será dizer que o Gonçalinho, a continuar a comer assim, acabará com obesidade mórbida. piadas à parte, duvido que estas mulheres continuem - partindo do pressuposto de que alguma vez foram - interessáveis aos seus homens. o cúmulo do desinteresse é quando me pedem para eu escolher e comprar, por elas, um presente para eles. gravidade no limite é quando descontraidamente lhes dizem que se não gostarem eu posso trocar. e o mundo, o delas, reduz-se - não à beleza das fraldas e da maternidade e do amor incondicional da família - ao sustentável peso do egoísmo mascarado de maternidade e de conjugalidade. outro dia qualquer, solidão nua e culpas - atribuidas aos seus homens- em punho, telefonam a chorar. uma boa amiga sabe ouvir durante horas mesmo que abomine telefones nos ouvidos. e quando chega, finalmente, aquela parte do já me sinto bem melhor e então tu como é que estás, é hora do tenho de desligar porque ainda tenho de tomar banho e depois acordar o Gonçalinho para lhe dar a papa a ver se dorme a noite inteira. beijinhos, quando tiver tempo, ligo!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

jubilo eu

a propósito, mas sem qualquer propósito de ser a propósito, do jubileu de diamante da reina, lembrei-me que esta seria a altura indicada para a Imperial lançar uma nova variante da marca, em lata de 460g, não para fazer jus à doçura de Isabel, para engordar os ingleses e igualmente as nossas receitas.

Antoni Tàpies:

é sempre bom quando vozes, a tua como tantas outras porém anónimas no mundo, se erguem contra as ditaduras. mas arte, para mim, é outra coisa e não te reconheço talento.

(posto isto não tenho por que lamentar a tua morte - é uma como tantas outras na vida. bon viatge. )

esquina do céu

desdobram-se, pouco caiadas, as paredes do andar, enquanto no cimo, no alto, na esquina do céu, ela respira de vaidade e diz, pensamentos por dobrar, o que eu andei p'ráqui chegar.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

doodles

nunca tinha dedicado a minha atenção, quando uso o google, a ver o que seria o estou com sorte mesmo ao lado do rectângulo do pesquisar. hoje de manhã, decidi começar a explorar e dei com os olhos nos doodles. gostei tanto - há tanta variedade de formas e cores e temas que até parece, apesar de não ser, interminável. e agora é para ir descobrindo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

(cavalo alado)

invento o mercado do ar
da minudência
onde a beleza que carrego nos olhos apregoa alto, bem alto, em voz já rouca e desafinada
que o ar da minha barraca é o melhor da temporada.
e do particular para o geral o ar emudece
esgazeado e cansado
não querendo ser, de minúcia,um burro
depois de saber o sabor do que é ser um cavalo.
(um cavalo alado)

corredor

estende-se em calçada, o corredor da vida - descendente de amarelo a torrar, comprido de luz ao peito, de fininho ao ledor, onde o céu é senhor doutor juíz: ora de dias de dano, ora de ledo proveito.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

m. de macaca

incrível é como alguém consegue escrever algo assim. poderia começar por minha querida mas não vou à bola com mentiras e fico com azia só de pensar que o poderia mesmo assim entender, a tal m.. fico a aguardar que aprove o meu comentário, lá no seu sítio dos macacos - ou se o lê, engole, e enche de vergonha.

planear sem ressalvar vai dar ao intestino

um mapa de planeamento de actividades tem tanto de profissional como de escorregadio - prever, com antecipação, o decorrer de meses que não apenas dependem da nossa parte do trabalho poderá ser um bom argumento de objectivos não atingidos. o melhor, mesmo, será colocar uma notinha bem gorda de que está sujeito, durante o tempo de implementação, ao número de revisões que forem necessárias. será esta, pois, a única forma de não passarmos por sermos um membro, infiltrado, do governno que tem mais olhos do que barriga e no fim, vai-se a ver, só fica o intestino.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

a justiça precisa de champô para lavar os colhões

o que é isto, um sem abrigo condenado a pagar duzentos e cinquenta euros por roubar um polvo e um champô ou, se não pagar, vai preso? seria, o champô e o polvo, para vender e realizar capital para acumular numa conta na suíça? que pena aplicar, então, a quem roubou, ainda há pouco na época do natal, o subsídio de milhões - talvez um pequeno trabalho comunitário, uma acção de sensibilização aos cidadãos para perceberem que a taxa de desemprego no auge é um mero exercício, não simulado, de evacuação? 

estou consternada. apetece-me sair já, de imediato, para roubar um champô e um polvo só para me mostrar solidária com a fome e a higiene - necessidades básicas por satisfazer, em crescente, no país.