domingo, 30 de março de 2014

essa é qu'é essa

causa de espanto não é fazer da abstinência sexual a antítese da tese do excesso de sexo. causa de espanto é fazer da abstinência sexual a tese da antítese do defeito de afecto.

sexta-feira, 21 de março de 2014

se serenata melhor não há
do que os concertos dos grilos na pele
onde estão as ondas e as mãos
de mel
ária
des
com
pa
ssada?
tiroliro

quinta-feira, 20 de março de 2014

em terra de voz ou

Em Terra Sonâmbula,

 Mia Couto vai alternando duas narrativas, e é por isso que todos o capítulos têm duas partes: na primeira ouvimos contar de Tuahir e Muidinga; e na segunda ouvimos em alta voz um dos cadernos de Kindzu. Há, portanto, neste romance, um texto com outro texto por dentro. Há uma espécie de magia explorada entre as narrativas, palavra e terra ou terra e palavra como se lavrar e tratar da terra para produzir fosse, e é, escrever. Maravilhoso Mia Couto.

Construção do Romance

Mia Couto vai, palavra a palavra, ideia a ideia, em metalinguística, construindo o seu - o nosso - romance, em intertexto de oralidade, o autor serve-se, e tão bem, de tradições orais africanas mas também daquilo que é narrar por cima da guerra. Há quem diga que Mia Couto não escreveu um romance - mas antes uma sucessão de contos e provérbios tendo como pano de fundo o horror da guerra.

O que importa?

Não importa a forma, as origens, as inspirações - tampouco as dores dos observados e a do observador. Importa, isso sim, na narrativa cheia de narrativas de Em Terra Sonâmbula, a emoção das palavras e das imagens que Mia Couto faz o favor de nos ofertar. São imagens com cheiro e palavras que, cheirando, forçam-nos a serem cheiradas. A atribuição de poderes à palavra pode bem ser entendida, como referem Ana Mafalda Leite e Gilberto Matusse, como a encenação das dimensões e das funções práticas características da palavra nas tradições orais africanas.

Passagem por Rousseau

Rousseau defende a tese de que as línguas não têm como causa a necessidade, mas as paixões. A primeira língua seria, sugere o filósofo, figurada, onomatopaica, vocal, em nada diferente do canto. A evolução das línguas, que as reduz à submissão da necessidade, faz com que se tornem monótonas e cheias de consoantes. A escrita alfabética vem coroar este processo de racionalização das línguas. Neste raciocínio, a escrita coroa e reforça o processo de afastamento das línguas da sua fonte original, o coração. Logo, a escrita e suas instituições afectam, portanto, negativamente as línguas. De um lado, definindo a civilização, temos a academia, as línguas escritas, a razão; de outro lado, configurando o estado natural, temos liberdade, canto, coração. Opõe-se racionalidade a irracionalidade, atribuindo-se artificialidade àquela e autenticidade a esta. 

Oralidade, pois


Não estará, então, explicada a preciosa oralidade que Mia Couto usa e abusa para narrar a tradição africana? E o canto? Não será a música a mais limpa forma de oralidade e de comunicação selvagem? A voz liga-se, portanto, à fruição, enquanto que a escrita estará relacionada com a racionalização. O texto escrito aparece como inevitavelmente destituído da capacidade de abordar a "complexidade das forças do desejo", sendo a enunciação oral "quase perfeita", pois culmina no canto.

quarta-feira, 19 de março de 2014

ah!

lavar a língua, literalmente, esfregar a língua mostra porquê que as pessoas não o fazem também metaforicamente a pontos de se libertarem das bactérias e germes: provoca o vómito.

terça-feira, 18 de março de 2014

as esperas, que parecem intermináveis, nas salas de instituições de saúde, resultam em reflexões longas mas abreviadas por gosto:  quem é que quer ser amado como se já estivesse morto? E quem é que que quer amar como se fosse um morto? não são perguntas - são afirmações redondamente fechadas. mortas.

domingo, 16 de março de 2014

a tripa

a minha curiosidade natural, quero com isto dizer que não foi intencional, fez-me ver a pila do meu pai durante a consulta. gargalhei e eles não gostaram: esgar reprovador do meu pai e outro demolidor da médica. segurei o riso, claro, sem poder explicar de onde vinha. e vinha de a pila ser tal e qual uma tripa de porco enfarinhada. depois disso mudei de ideias, só os burros é que não mudam, e fui comprar um kispo para a minha princesa peluda. para quê apanhar chuva se depois tenho de estar a limpá-la e fica sempre com frio? elegantíssimo, creme a contrastar com a negrura dos cabelos, tem flores bordadas a linha prateada. por dentro é cardado e tem um pêlo maravilhoso no capuz. parece mesmo uma princesinha - tanto que me mandou logo ao reininho.

mas hoje não sei como segurar o riso, concluindo, vou fazer rojões para o almoço. rojões com a tripa enfarinhada.

quinta-feira, 13 de março de 2014

idiotário

tem vezes que o dicionário só serve mesmo para meter no cu de pedófilos e violadores: as palavras aparecem com o significado de sinónimos sem, no entanto, aparecer a definição do sinónimo. é o caso de tildar e tilar. fiquei a saber o mesmo. porca miséria.

tenho a certeza

absoluta: os homens que só se envolvem com mulheres para putarias têm carácter de chulos invertidos: alimentam-se da pureza, desprezando-a, roçando-se na imundice.

quarta-feira, 12 de março de 2014

uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa

fiquei quilhada para sempre com ele, bem sei que para sempre é muito tempo mas o que não me é para sempre passa-me minutos ou, quando muito, dias depois - e não passa porque abomino hipocrisia. mas esta miniatura  pornograficamente amorosa roubou-me risota. é isso: sou da pornografia amorosa.

sábado, 8 de março de 2014

mixórdia

acho uma certa piada aos que só funcionam através de implicitismos, nem sei se esta palavra existe, de atitudes caracterizadas por não atitudes - as mesmas que exigem dos outros para, com eles, se relacionarem - como se o processo de auto-aceitação deles próprios passasse pela rejeição dos outros. bem visto, tudo não passa de um exercício de rejeição própria frustrada. e faço-lhes distinção: de um lado meto os que o fazem por natureza, sei bem ver quem são mesmo sem ver, e, no outro, os que se convencem que assim é que é ser diferente tomando esta diferença como a grande virtude da sua vida. E se os primeiros merecem o meu respeito e admiração exuberante, os segundos fazem-me rir de tão ridículos: é que sabem tão bem quanto eu que são uma farsa.
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quando inventarem o dia internacional do peido - a maior prova gasosa e viva do sucesso e dos fracassos das relações - estarei, prontamente e com alegria, em todos os traços da celebração. até lá!
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quando houver uma manifestação de azeitolas machos e fêmeas, é informar - para eu indicar alguns nomes para os cartazes.
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há pouca coisa que tenha o sabor da memória como a regueifa.
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o ballet é a mais bela de todas as danças - talvez por não ser apenas uma dança de pontas.

quinta-feira, 6 de março de 2014

boa!

estes vasos etruscos poemados! quero mais, Pidarra.

(um dia vou escrever uma coisa do género, a quem eu cá sei, quando o teu tronco se deixar querer as minhas raízes podemos florir ao som das seivas que se vão, tão cremosas, engolindo e espalhando. não, cremosas não: cremosa - porque a minha é mais água de mar temperada que te vai sempre matar a sede. )

sábado, 1 de março de 2014

Pidarra,

não arranjes desculpas para justificar o quanto amar dá trabalho e que, por isso, mais vale ser apenas amado. 

isto faz pensar no progresso - quero dizer na falta de progresso essencial do Homem.

(5ª linha, o por os afectos. será este singular, talvez, um acto falhado) :-)