quinta-feira, 29 de março de 2012

bravo!

Sem peias nem travões

fantasias de piriquitos

imaginei-os ao sabor de uma chuva torrencial, esboaçar de alegria, com o mesmo entusiasmo com que saltitam ao sol. e não tive mais nada: liguei a mangueira e encharquei-os com abundância. agora, ficamos todos consolados - eu satisfiz a minha fantasia e eles, na realidade, adoraram. talvez isto tivesse acontecido, penso com convicção, porque simplesmente terei absorvido o desejo deles e o que imaginei foi, nada mais nada menos, o que eles queriam e me passaram naquela língua estranha e aguda, que sai dos bicos de ponta fina e arqueados, que é a deles.

quarta-feira, 28 de março de 2012

funlo

a definição de fungo, no dicionário, diz que é uma excrescência esponjosa na pele ou nas mucosas. a minha é bem mais simples: fungo é um parasita filho da puta, um chulo, que anda a viver à custa do meu pé.

terça-feira, 27 de março de 2012

reclamo - logo existo.

a maior diferença entre deus e o quintal do vizinho é que o vizinho reclama se alguém lhe atirar com lixo. será esta a maior, e mais irrefutável, evidência de que deus não existe?

domingo, 25 de março de 2012

filetes de peixe gato (ou outros quaisquer) no forno


numa frigideira, ou sertã à moda do norte, deita as cebolas cortadas em rodelas, um dente de alho picado, uma folha de louro e rega generosamente com azeite. tempera com sal e leva ao lume até que a cebola fique mole. retira do lume, deita fora o louro, e espalha no fundo de um tabuleiro que possa ir ao forno.

lava bem os filetes e seca-os com um pano ou rolo de cozinha.
num prato, coloca o ovo e bate; noutro, o pão ralado - tempera com sal e pimenta e mistura muito bem. passa um filete de cada vez pelo ovo e de seguida pelo pão ralado (o chamado panar).

no tabuleiro, por cima da cebola, coloca um filete panado e por cima deste bastante queijo e por cima do queijo coloca outro filete. e vai fazendo assim até que se acabem os filetes, colocando-os uns ao lado dos outros.

corta as batatas em meias luas e mete-as ao lado e em volta dos filetes. polvilha tudo com o alho picado, rega com um pouco de azeite e leva ao forno até que os filetes fiquem bem douradinhos e as batatas assadas.

serva bem quente e entra no reino dos céus.

sábado, 24 de março de 2012

bombaré

e no momento da fusão
uma e outra sussuram o corar
é asas com asas, é,
é riso com riso, é,
é orelha com orelha
e colocam o biombo, fecham-se ao mundo em couces
assim é a parelha onde não cabe sensaboria
é fabordão
dabom
gabão
e depois pabulam-se, sim senhor, ai! como é pabular
quando um beijo não é beijo
é bombaré
que atravessa o tempo e o lugar
sobrevoa o céu, cânhamo de ar
e aterra, sempre a planar, no pé

menuro

viemos, e estamos, sozinhos e do vestido se faz nu: em redor há menuro, há, que ora pinta a garrido ora despeja tons de cru.

cantil

é beleza
como se água a tiracolo
cantil
espalhada no alto
no baixo
no centro dos olhos que procuram
e encontram
existência elevada a mil

sexta-feira, 23 de março de 2012

estilo de morte saudável

a CM de Matosinhos acaba de proibir o uso de flores plásticas nos cemitérios e os argumentos caem na prevenção de incêndio, por ser mais fácil erradicar o risco pelas flores de plástico do que pelas velas. e eu, cá no meu canto, imagino que os mortos hão-de estar a morrer de riso por saberem que vivem sem correrem qualquer risco de morrer. será caso para dizer que o município tem fortes preocupações em oferecer, à população, um estilo de morte saudável, qualidade de morte.

(isto merece uma linda banda sonora)



estás a aguardar uma oportunidade para andares da perna com a videomusicalidade que vive dentro de ti?

inscreve-te aqui.

e eu respondo: mudam-se os tempos, mudam-se os à-vontades.

"Bolinha
Houve um tempo em que o aparecimento da bolinha vermelha no canto do ecrã do televisor suscitava perturbação e expectativa."

quem o diz é o José António, O Escafandro, homem de poucas falas mas abundante em pensamentos e boa disposição. conhecemo-nos, há uns dez anos, num curso, na universidade e aprendi imenso com ele e com a sua colega de profissão, a Ana Sofia. eu era a mais tenrinha e aquilo para mim era tudo novo mas tamanha era a vontade de explorar tudo, fiz o que sempre faço: sorvi tudo e todos durante o ano que estivemos juntos e ainda hoje, quando me vejo perdida em algum projecto, é a eles que recorro para me safarem. e a verdade é que me safam e enchem-me de sabedoria e também de alegria: almoçar com o José António e com a Ana Sofia é um gosto e um prazer - há risota pegada e muita conversa boa; há, sempre, sempre, sempre, perturbação e expectativa da melhor e vamos mudando, mantendo, os à-vontades.


(reparei, entretanto, no uso exagerado de tudo no texto. que se lixe, assim vou manter, afinal de contas é a minha palavra de estima, uma das minhas preferidas.)

também gosto do frio

por este andar, dar para bronzear em pleno março em praias ou terraços ou relvas do norte, ainda havemos de poder usar vestidos leves e de decotes em dezembro. não, não quero disso - o que será do encanto das lareiras e da beleza do fogo a estalar e do cheiro como se a chouriço assado, nas paredes, no dia seguinte?

quinta-feira, 22 de março de 2012

triste constatação

a maioria absoluta recai sobre, não os que cumprem, os que falham com a palavra que dão.

(é nestas alturas que me lembro do pinóquio e lhe acrescento uma língua manhosa - a cada falhanço, de uns e outros, havia de lhes começar a crescer o nariz e a diminiur a língua. como eu gostava, ai!, de vê-los, aos narizes mentirosos, a bater nos joelhos e, sem línguas a bater nos céus, com as bocas mutiladas.)

equilíbrio

custa-lhe tanto resistir à repetição de uma dose de comida como fazer exercício físico.

quarta-feira, 21 de março de 2012

para o lanche:

aqui.

vulcão

por dentro dos montes e dos vales e da água que é o cérebro é muito difícil sabermos quando estamos a nadar ou a fazer piqueniques. por vezes acontece cair uma faúlha, do churrasco, na faúla e, pululantes de fogo, travamos o arder. outras, fora de pé, nadamos até à relva como se viver fosse a sentar. o cérebro é um lugar estranho - prefiro a aldeia do vulcão, o coração, por entre lavas quentes e indomáveis, onde a imprevisibilidade - que apenas sobe aos montes em pequenas promenades - é reina.

terça-feira, 20 de março de 2012

bigodes grisalhos d'amor

 :
em grisalho tom ouvem-se histórias
 façanhas
 lições do dever e do fazer
 como se em bigodes fartos se pendurasse o ser
e é, assim, gostar - não de cal - de pedra
preferir a amêndoa à flor
 como assim só pode ser
 grisalho
 e em bigodes
o amor
.

segunda-feira, 19 de março de 2012

homens que fazem gluglu

diz-se que os homens não têm grande capacidade para suportar a dor física. isto até pode ser verdade mas apenas se não levarmos em consideração a questão, aquela, a the one, a que move montanhas na modernidade, estética. vi eu com estes olhinhos negros azeitonados e brilhantes que um dia nem a terra há-de comer, porque os olhos não morrem, um amigo de uma amiga, tronco nu, esticado na cama, a ser completamente torturado com cera. o rapaz, branquinho como a farinha triga, ficou como fica quem apanha um escaldão e com aqueles mini-raios roxos como fica quem se esfola quando dá um tombo. optei por ir para a cozinha preparar frango com cogumelos e massa com natas para o jantar enquanto digeria, em lentidão, o que tinha acabado de ver: um perú prestes a ser besuntado. 

os homens já não querem ter pêlo no peito, é o que é, e eu penso como é que é possível fazer-se rolinhos com o pêlo, também do peito, se o arrancam com violência e desprezo com destino final de maldivas d'aspirador? não é: a modernidade dispensa rolinhos e carícias nos pêlos - prefere peitos passados a ferro, sedas de nus, e talvez até pilas esfoliadas. ai que miséria.

sábado, 17 de março de 2012

afinfar

se juntarmos, durante a preparação, mais leite do que água o resultado será pataniscas de bacalhau mais fôfas e deliciosas. é só. é a experimentar que se sobe o degrau. ou, então, é a experimentar que se afinfa o bacalhau.

sexta-feira, 16 de março de 2012

a insustentável leveza do parecer

um parêntesis no meio de uma crise existencial - as crises existenciais não são aquelas em que questiono quem sou de onde vim e para onde vou mas as que me reforçam a certeza de quem sou e de onde vim e para onde quero ir pela incerteza de poder ser quem sou e ir para onde quero, a primeira foi há cerca de sete anos e isso leva-me a concluir, não sei se prematuramente mas com a certeza intuitiva com que me habituei a viver, que entro em curto-circuito ao fim de ciclos de sete anos - foi uma oferta bem atrasada de aniversário em pura, total, poesia: um bailado russo em lago de cisnes no edifício mandado construir pela companhia de seguros garantia: o coliseu. não importa que os bailarinos não estivessem perfeitos em tempos nem em equilíbrio, estariam uns e outros (pode ser) igualmente a completar o pacote dos sete anos de vida, mas a magia da leveza, não só em pontas, da ponta dos pés até ao tecto alto, bem alto, que me transportou para o bico dos sonhos de olhos abertos. e cada passo, como se o andar fosse (e é) enfeitar cada movimento e procurar em cada um o mais leve respirar e a mais intensa concentração de amor; como se a vida se fizesse em cada arfar de melodia e se cada som tocasse violino para cada movimento e se a orquestra dançasse para nós e eles, os bailarinos, tocassem movimentos para ela. e tudo se confunde, entretanto, no palco da poesia: os bailarinos sou eu e eles são a orquestra e eu sou as pontas dos graves e dos agudos e ela dança vestida de tule.

e o parêntesis, em aberto, transfoma-se no livro e depois na colecção de livros e, enfim, na livraria privada. e quando chega a hora de fechar o parêntesis - talvez não passe de isso mesmo, penso, de um parêntesis no meu pensamento que se recusa a aceitar que a minha vida não pode ser uma livraria mas apenas uns e outros parêntesis -, a leveza contagia. contagia tanto que já dormi e ainda julgo que a minha vida é, como não deixam que seja como eu quero, leve.

tenho mesmo de partilhar

o mano mais gato do mundo. ai! como está garantida a minha satisfação! :-)

(meninas, não se esbarrem na estrada: os outdoors andam aí)

quinta-feira, 15 de março de 2012

escândalo

escândalo. dizem-me ser um escândalo recusar a visita de uma prima que considero uma estranha; que é um escândalo considerar uma estranha alguém que tem o meu sangue. tretas, tudo tretas, não é o sangue que nos faz sentir proximidade e vontade de estar e de receber. não quero saber se é prima, se pegou em mim ao colo ou se gosta mais de batatas do que de motas, e não tenho vontade, nem curiosidade, em vê-la e ouvi-la. não faço fretes e isso é, dizem-me, um escândalo.

(pois para mim escândalo é o telefone desligar-se, sem me dar aviso prévio nem explicação de silêncio, e eu não me lembrar do pin. e ainda me ameaça, o cabrão, dizendo-me que só tenho mais uma tentativa. isto, sim, é um escândalo.)

quarta-feira, 14 de março de 2012

depêlação da areia

bem sei que talvez nesta altura seja um desejo de luxúria mas as areias das praias deviam ser tão asseadas fora como dentro da época balnear pois as areias são assim uma espécie de pernas da água que são precisas para andar até molhar e as pernas querem-se sempre sem pêlos ou não fossem os pêlos as ervas daninhas da maciez dos jardins.

segunda-feira, 12 de março de 2012

fura-nos fode-nos faz-nos

soltem-se as borboletas da caixa
deixem-nas, zonzas, voar
como se o tempo fosse demente
e estridente
e carente
assim como voam os mosquitos celestes
as pragas dos cheiros campestres
já que o amor não é docemente
e amar é sempre contra a corrente
com força
com a força da rocha que se agarra ao mar
e do rebanho solto no monte
raízes debaixo
por debaixo
das sete saias da seiva de viver
o amor é um bicho que pica
fura-nos
fode-nos
faz-nos
para não nos deixar morrer.

generalidades atemporais

um casal, quando quer engravidar, esforça-se ao máximo em iteração sexual. curiosamente, este reforço traduz-se em aumento do tempo do resultado positivo.

(não há mistério: a energia sexual, vernácula, é espontânea e não usa cartão de ponto.)

domingo, 11 de março de 2012

generalidades atemporais

quando se tem frio, e se pode, mete-se as mãos no meio das pernas.

(não há mistério: a virtude é quente.)

o azeite no sapato

já não me lembrava de me chocar com isto, quero dizer com aquilo, de me cruzar com um homem e de fixarmos o olhar e eles, os olhos, irem descendo à procura de mais pontos, os olhos também buscam a completude, e de gritarem socorro! acudam! quando chegaram aos pés. é curiosa a força que uns sapatos azeiteiros, o que categoriza o azeite no sapato é o óleo do cabelo nos pés ou as nódoas no peito de uma camisa ou a conversa desinteressante e ordinária de um cérebro, tem num primeiro impacto quando tudo o que se conhece é o que se vê. e depois, quando aflitinhos, os olhos, começaram a subir à pressa para voltarem a apanhar o comboio do regalo, molície de ver, o homem já não tem ponta por onde se lhe pegue: como se a um olhar de sol, ofuscante, se seguisse uma imensa trovoada com chuva grossa. bem visto, o que eu quero dizer é que há banhadas assim.

sábado, 10 de março de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

lógica e emoção

os homens são, na generalidade, racionais e as mulheres são, cada vez menos, cada vez mais uma minoria, emotivas. e a lógica, a voz da razão, é uma derrubadora, uma vencedora. e a vida é, em deserto de emoções, logicamente uma campeã que esconde e manipula a verdade. importante mesmo é completar a lógica com a emoção. um homem de cinquenta anos e uma mulher de vinte apaixonam-se. passa tempo.
o homem, pura lógica, diz que o que está a acontecer é que, na verdade, ambos têm quarenta anos porque ela, com a sua jovialidade, fá-lo sentir-se dez anos mais novo e ele, pela sua sabedoria, fá-la sentir-se dez anos mais velha. a verdade, a do amor, a única que conta, está a ser escondida com absoluta lógica verdadeira. 
ela. já ela diz, simplesmente, que se amam.

quarta-feira, 7 de março de 2012

oitenta

os olhos são para pôr na mesa: de quatro se faz oito como se o mundo em placenta - não há alegria maior, venham ver, do que deixar o oito e abraçar o oitenta.

um sonho de carcaça

aqui não há desta invenção: o molete é pequenino e tem de se comer dois ou três para saciar o papo. nas carcaças deve caber um ovo estrelado, sem ser encolhido, como se a exibir a cauda do céu. e uma fatia de fiambre inteira a servir de tapete rosado e mais duas de queijo a derreter-lhe, ao miolo, o coração. que maravilha.

terça-feira, 6 de março de 2012

da chávena e do prato

dizia-me ela, na cozinha dele, que faz um esforço de vez em quando: a conjugalidade não lhe faz qualquer sentido, duas camas à moda de hotel é o ideal; o ressonar, o mexer, o hálito da boca de cima (e de baixo), os pêlos curtos e redondos no chão, o cheiro da urina; a roupa suja, o jantar diário. haver, portanto, toda uma separação de males e restar os momentos bons, os que considera bons, que se resumem, bem visto, ao sexo visto que o Q. não é homem de conversas- tampouco de boas conversas. e se ele pensa igual, digo eu a avaliar pelo que vejo, no nojo que lhe mete ver o corrimento nas cuecas dela; o varejo que ela lhe faz quando se levanta enquanto ele ainda dorme e o barulho do secador a entrar pelos lençóis; os pensos higiénicos enrolados no balde umas vezes durante o mês; o que tresanda quando abre a tampa da sanita como se comesse rosas, ele, e ela ovos podres com açucar.

objectos. não passam de coisas, de duas coisas, que se esfregam uma na outra em troca de uns ais sonantes e talvez muitas vezes fingidos, as mulheres-objecto que utilizam homens-objecto costumam fingir essas coisas para ficarem com o argumento dos momentos bons activo, e que servem de despeja-colhões mais ou menos certas e estáveis. que deserto de auto-estima , senhor dos amarrados.

(ora se o que é importante começa depois do sexo e o sexo só faz sentido ascendente com importância concluo, então, que se alguns sexos verbalizassem pensamentos diriam o seguinte dos seus cérebros: tens um qi típico de anedota, da relé ordinária, da chávena e do prato - ai filha tens um cu tão quente. deprimente, miserável, penoso, decadente. oh! lord!)

segunda-feira, 5 de março de 2012

memória do entroncamento

o hospital maria pia vai encerrar. tenho uma memória bem nítida lá e uma outra associada que não sei explicar: a minha primeira consulta oftalmológica, em olhos alternadamente tapados e letras a verbalizar em alta voz, e, depois, a tal memória do entroncamento em que passávamos, eu e a minha mãe, por uma casa de banho pública e dizia-me ela que o George Michael tinha sido flagrado a fazer sexo oral a um estranho em uma. é mesmo estranho, isto, visto que, por essa altura, às tantas o gajo ainda nem sequer gostava de lamber pilas sem rosto em cenário de urinol peçonhento.

canta para espantar os males da consciência, o filho da puta.

quem sou eu para julgar quem quer que seja - mas tenho uma, não mera mas forte, opinião baseada na minha intuição: o Paco Bandeira é um grande, enorme, filho da puta culpado pela morte rápida da primeira mulher e da quase morte lenta da segunda. só um grande, enorme, filho da puta culpado sorri perante tal acusação e canta bem a vida como se com vida desse o bem a viver.

domingo, 4 de março de 2012

em tule

como é belo o véu na geometria do losango.
os véus, em tule esculpidos, são sempre belos
ai! como ela sabe!
assim como sabe que as linhas da vida não são rectas
misturar losangos com véus
sabor de doçura esperta
estampada nas portas.
venham ver a costureira das rendinhas do amor
em losango de tule - ou seda ou cetim
ou até em algodão de traje, que importa, se amar não é ultraje?
amar é que é festim.

sábado, 3 de março de 2012

generalidades atemporais

quando perdemos alguma coisa que nos faz falta empreendemos todos os esforços para encontrá-la e, paradoxalmente, quando a encontramos já não precisamos dela.

(não há mistério - não precisamos porque já a substituímos)

sexta-feira, 2 de março de 2012

queques mulatos

ingredientes para dez queques:

100 g de margarina
150 g de açúcar
3 ovos
1 colher de sopa de cacau em pó
3 colheres de sopa de leite
150 g de farinha
1 colher de sobremesa de fermento em pó

bater a margarina com o açúcar até se obter um creme esbranquiçado e juntar os ovos inteiros, um a um, continuando a bater. entretanto adicionar o cacau, previamente dissolvido no leite, misturar bem e, finalmente, juntar a farinha peneirada com o fermento. é tempo de encher, com a massa, caixinhas de papel frisado, até 2/3 de altura, e levar ao forno que já deve estar moderadamente quente (180º C) durante cerca de 25 minutos. 

mete o palito e vê se já sai limpo. sim? então polvilha com açúcar e ataca com alegria. e a banda sonora pode ser esta:


dicefalia

a palavra do dia do priberam é dicéfalo e vem mesmo a calhar: o mundo está cheio de monstros com duas cabeças como se cada cabeça fosse a representação de dois opostos que orgulhosamente fazem questão de exibir ou esconder. o caso mais flagrante de dicefalia que tenho vindo a observar nos últimos tempos, por evidência de factura, cabe no homem que faz a contagem da luz.

quinta-feira, 1 de março de 2012

começo de fim

três meninas e um menino, todos com dez anos de idade, barafustam uns com os outros: elas defendem-se entre si e ele tenta defender-se delas que, aguerridas, exaltam a rudeza do rapaz que lhes oferece porrada e as insulta. pergunto-lhe se há alguma razão pertinente para o fazer. responde-me que as raparigas são burras e que o irritam. pergunto-lhe se pelas mesmas razões o faria com os seus colegas e diz-me, por saber que seria sovado, que não. pergunto-lhe se tem irmãs e como reagiria se as visse serem agredidas daquela forma - diz-me que não. sento-o no meu colo e trato-o como a um bebé que não tem consciência: envergonha-se nitidamente. depois faço com que me olhe nos olhos e volto a questioná-lo: gostavas de saber, ou de ver, que o teu pai bate na tua mãe quando simplesmente não concorda com ela ou acorda mal disposto? deita os olhos ao chão e diz-me que não. faço-o repetir que não voltará a comportar-se como um búfalo raivoso com as colegas e pede-lhes, por iniciativa própria, desculpa. 

parece-me um bom começo de fim, aos dez anos, perceber o monstro que há dentro dele.