quinta-feira, 19 de maio de 2011

afinal, o trabalho seguro mata

voz de sofrimento, a dela, ao telefone. justifica porque não ligou nem respondeu aos emails; complementa a justificação por estar mentalmente afectada, que está sem trabalho e o que tem - já facturado - não o consegue terminar. diz que se sente perdida, carreira profissional em precipício, sem auditorias para fazer; arrasta a conversa para o psiquiatra que lhe administrou medicação e com a qual se sente ainda mais inibida para trabalhar; comenta, orgulho ferido, que depender do marido é que não pode ser.

desabafos, justificações, cansaços. e eu, que não vejo a vida senão insegura, sem certezas e sem portos, disse-lhe, com o melhor de mim: fecha o escritório e só voltas a lá entrar quando (e se) te sentires capaz. quando acordares de manhã, fazes de conta que tens uma perna partida e logicamente não podes usar saltos nem andar: também é assim com o teu cérebro - está doente e precisa do sofá. e depois existe a vida, o amor, a pintura - existe tudo aquilo que escolheste, por opção, dedicar o menos tempo possível. não estará a vida a dar-te uma oportunidade de reafectares o teu tempo? não andarás, há tanto tempo, a viver para o trabalho, a canalizar para papéis, simples papéis, a tua vida? a vida é o trabalho? e essa dependência que falas, falas do que é de verdade um casamento? para que serve um marido senão para ser braço e cérebro e sangue e suor e lágrimas e riso e, sim, mealheiro? e o teu filho, há quanto tempo não o ouves e não o mimas? e pintar, tens pintado?

e depois de desligar, penso mais ainda na tristeza da modernidade: as mulheres recusam-se a passar tempo no lar e a partilhar dinheiro do marido porque têm medo de não ser modernas; os homens não podem chegar cedo porque têm medo que as mulheres pensem que estão a ser, démodè, dedicados; os filhos têm vergonha de levar os amigos para casa porque a mãe não está a trabalhar e a dedicação à casa é sinónimo de ignorância. o que é isto? onde está a importância real da vida, é no trabalho? é no trabalho que as pessoas modernas se realizam e se vivem e se morrem e se vêm? é o trabalho que dignifica as gentes ou antes as gentes que dignificam o trabalho?




e fiquei triste, por reconhecer nela tanta gente. e fiquei contente, por não me reconhecer nela nem em tanta gente.

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