sexta-feira, 6 de abril de 2012

a favor

passou, por mim, um carro da GNR e, olhares cruzados, lembrei-me da Catarina Eufémia, ah ceifeira de ovários caseiros e bem alimentados, mas este tipo de flashes ainda levará o povo a dizer que sou comunista, comunista filiada. penso, entretanto, pelo caminho, que para ser uma revolucionária como ela eu teria de me sentir oprimida e reagir contra. mas eu sou uma rebelde, que é bem diferente, vivo fora da bolha, e todas as minhas reacções são a favor. a favor da minha alma. é isso.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

mário soares em analogias na estrada

(parece-me mesmo bem que o estado seja obrigado a pagar uma multa por andar, fora da lei, em excesso de velocidade)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

(vagina triste a dela)

ouvi dizer que a ginecologista lhe receitou pomada e outras coisas para uma inflamação na vagina . disse-lhe que sei de outra cura porque uma vez, talvez causada por um qualquer insecto que terá gostado das minhas cuequinhas enquanto secavam ao sol, experimentei isto: arranjei aloe vera natural - por aqui é fácil arranjar, há em qualquer jardim -, lavei muito bem. depois aparei-lhe os picos dos lados e cortei-lhe as pontas e, sempre com uma tesoura, recortei a peça em rectângulos finos e do tamanho do dedo mindinho. (apenas uma pequena observação muito importante: só se pode recortar mesmo antes de usar senão não faz efeito porque seca todo aquele molho que vai largando) antes de deitar, introduzi três ou quatro rectângulos na vagina e dormi tranquilamente. o que aconteceu foi que durante a pequena morte toda a seiva maravilhosa da planta passou para mim. e de manhã, naturalmente, quando fui libertar as primeiras àguas saíram os pequenos rectângulos, como que chupados pela vagina, incrivelmente secos. e bastou repetir duas a três noites para repor o vagilíbrio.

não acreditou, riu, e prefere andar a colocar pomadas e outras artificialidades. está bem - não sabe, como eu sei, que as vaginas devoram, porque adoram, o molho de aloe vera. talvez façam, até, de propósito para inflamarem só para poderem chupar os rectângulos como se fossem gomas frescas.

(vagina triste a dela)

terça-feira, 3 de abril de 2012

olhos de ficar

pardos são os olhos
veranistas, obcónicos, que vêem sem cor
as águas fortes como se paradas
as cúpulas como se cimeiras de dor
são pardos os olhos, são,
que atentam o meu olhar
pracejam não praziam
trambicam por aí o ficar
pardos são os olhos, são,
debatidura, detruncar

segunda-feira, 2 de abril de 2012

domingo, 1 de abril de 2012

pormenores gigantes

depois de descobrir exactamente que nome dar à enorme fatia folhada, maravilhosa, cujo recheio se torna quase - quase - indecifrável ao olhar e paladar, blimunda, descobri também que não sabiam, nem sabem, nem vão procurar saber, o que é ser blimunda e, depois, blimunda renovada.

(até dá vontade de dizer: sim, é blimunda. mais sete vezes vão todos para a puta que vos pariu)

quinta-feira, 29 de março de 2012

bravo!

Sem peias nem travões

fantasias de piriquitos

imaginei-os ao sabor de uma chuva torrencial, esboaçar de alegria, com o mesmo entusiasmo com que saltitam ao sol. e não tive mais nada: liguei a mangueira e encharquei-os com abundância. agora, ficamos todos consolados - eu satisfiz a minha fantasia e eles, na realidade, adoraram. talvez isto tivesse acontecido, penso com convicção, porque simplesmente terei absorvido o desejo deles e o que imaginei foi, nada mais nada menos, o que eles queriam e me passaram naquela língua estranha e aguda, que sai dos bicos de ponta fina e arqueados, que é a deles.

quarta-feira, 28 de março de 2012

funlo

a definição de fungo, no dicionário, diz que é uma excrescência esponjosa na pele ou nas mucosas. a minha é bem mais simples: fungo é um parasita filho da puta, um chulo, que anda a viver à custa do meu pé.

terça-feira, 27 de março de 2012

reclamo - logo existo.

a maior diferença entre deus e o quintal do vizinho é que o vizinho reclama se alguém lhe atirar com lixo. será esta a maior, e mais irrefutável, evidência de que deus não existe?

domingo, 25 de março de 2012

filetes de peixe gato (ou outros quaisquer) no forno


numa frigideira, ou sertã à moda do norte, deita as cebolas cortadas em rodelas, um dente de alho picado, uma folha de louro e rega generosamente com azeite. tempera com sal e leva ao lume até que a cebola fique mole. retira do lume, deita fora o louro, e espalha no fundo de um tabuleiro que possa ir ao forno.

lava bem os filetes e seca-os com um pano ou rolo de cozinha.
num prato, coloca o ovo e bate; noutro, o pão ralado - tempera com sal e pimenta e mistura muito bem. passa um filete de cada vez pelo ovo e de seguida pelo pão ralado (o chamado panar).

no tabuleiro, por cima da cebola, coloca um filete panado e por cima deste bastante queijo e por cima do queijo coloca outro filete. e vai fazendo assim até que se acabem os filetes, colocando-os uns ao lado dos outros.

corta as batatas em meias luas e mete-as ao lado e em volta dos filetes. polvilha tudo com o alho picado, rega com um pouco de azeite e leva ao forno até que os filetes fiquem bem douradinhos e as batatas assadas.

serva bem quente e entra no reino dos céus.

sábado, 24 de março de 2012

bombaré

e no momento da fusão
uma e outra sussuram o corar
é asas com asas, é,
é riso com riso, é,
é orelha com orelha
e colocam o biombo, fecham-se ao mundo em couces
assim é a parelha onde não cabe sensaboria
é fabordão
dabom
gabão
e depois pabulam-se, sim senhor, ai! como é pabular
quando um beijo não é beijo
é bombaré
que atravessa o tempo e o lugar
sobrevoa o céu, cânhamo de ar
e aterra, sempre a planar, no pé

menuro

viemos, e estamos, sozinhos e do vestido se faz nu: em redor há menuro, há, que ora pinta a garrido ora despeja tons de cru.

cantil

é beleza
como se água a tiracolo
cantil
espalhada no alto
no baixo
no centro dos olhos que procuram
e encontram
existência elevada a mil

sexta-feira, 23 de março de 2012

estilo de morte saudável

a CM de Matosinhos acaba de proibir o uso de flores plásticas nos cemitérios e os argumentos caem na prevenção de incêndio, por ser mais fácil erradicar o risco pelas flores de plástico do que pelas velas. e eu, cá no meu canto, imagino que os mortos hão-de estar a morrer de riso por saberem que vivem sem correrem qualquer risco de morrer. será caso para dizer que o município tem fortes preocupações em oferecer, à população, um estilo de morte saudável, qualidade de morte.

(isto merece uma linda banda sonora)



estás a aguardar uma oportunidade para andares da perna com a videomusicalidade que vive dentro de ti?

inscreve-te aqui.

e eu respondo: mudam-se os tempos, mudam-se os à-vontades.

"Bolinha
Houve um tempo em que o aparecimento da bolinha vermelha no canto do ecrã do televisor suscitava perturbação e expectativa."

quem o diz é o José António, O Escafandro, homem de poucas falas mas abundante em pensamentos e boa disposição. conhecemo-nos, há uns dez anos, num curso, na universidade e aprendi imenso com ele e com a sua colega de profissão, a Ana Sofia. eu era a mais tenrinha e aquilo para mim era tudo novo mas tamanha era a vontade de explorar tudo, fiz o que sempre faço: sorvi tudo e todos durante o ano que estivemos juntos e ainda hoje, quando me vejo perdida em algum projecto, é a eles que recorro para me safarem. e a verdade é que me safam e enchem-me de sabedoria e também de alegria: almoçar com o José António e com a Ana Sofia é um gosto e um prazer - há risota pegada e muita conversa boa; há, sempre, sempre, sempre, perturbação e expectativa da melhor e vamos mudando, mantendo, os à-vontades.


(reparei, entretanto, no uso exagerado de tudo no texto. que se lixe, assim vou manter, afinal de contas é a minha palavra de estima, uma das minhas preferidas.)

também gosto do frio

por este andar, dar para bronzear em pleno março em praias ou terraços ou relvas do norte, ainda havemos de poder usar vestidos leves e de decotes em dezembro. não, não quero disso - o que será do encanto das lareiras e da beleza do fogo a estalar e do cheiro como se a chouriço assado, nas paredes, no dia seguinte?

quinta-feira, 22 de março de 2012

triste constatação

a maioria absoluta recai sobre, não os que cumprem, os que falham com a palavra que dão.

(é nestas alturas que me lembro do pinóquio e lhe acrescento uma língua manhosa - a cada falhanço, de uns e outros, havia de lhes começar a crescer o nariz e a diminiur a língua. como eu gostava, ai!, de vê-los, aos narizes mentirosos, a bater nos joelhos e, sem línguas a bater nos céus, com as bocas mutiladas.)

equilíbrio

custa-lhe tanto resistir à repetição de uma dose de comida como fazer exercício físico.

quarta-feira, 21 de março de 2012

para o lanche:

aqui.

vulcão

por dentro dos montes e dos vales e da água que é o cérebro é muito difícil sabermos quando estamos a nadar ou a fazer piqueniques. por vezes acontece cair uma faúlha, do churrasco, na faúla e, pululantes de fogo, travamos o arder. outras, fora de pé, nadamos até à relva como se viver fosse a sentar. o cérebro é um lugar estranho - prefiro a aldeia do vulcão, o coração, por entre lavas quentes e indomáveis, onde a imprevisibilidade - que apenas sobe aos montes em pequenas promenades - é reina.

terça-feira, 20 de março de 2012

bigodes grisalhos d'amor

 :
em grisalho tom ouvem-se histórias
 façanhas
 lições do dever e do fazer
 como se em bigodes fartos se pendurasse o ser
e é, assim, gostar - não de cal - de pedra
preferir a amêndoa à flor
 como assim só pode ser
 grisalho
 e em bigodes
o amor
.

segunda-feira, 19 de março de 2012

homens que fazem gluglu

diz-se que os homens não têm grande capacidade para suportar a dor física. isto até pode ser verdade mas apenas se não levarmos em consideração a questão, aquela, a the one, a que move montanhas na modernidade, estética. vi eu com estes olhinhos negros azeitonados e brilhantes que um dia nem a terra há-de comer, porque os olhos não morrem, um amigo de uma amiga, tronco nu, esticado na cama, a ser completamente torturado com cera. o rapaz, branquinho como a farinha triga, ficou como fica quem apanha um escaldão e com aqueles mini-raios roxos como fica quem se esfola quando dá um tombo. optei por ir para a cozinha preparar frango com cogumelos e massa com natas para o jantar enquanto digeria, em lentidão, o que tinha acabado de ver: um perú prestes a ser besuntado. 

os homens já não querem ter pêlo no peito, é o que é, e eu penso como é que é possível fazer-se rolinhos com o pêlo, também do peito, se o arrancam com violência e desprezo com destino final de maldivas d'aspirador? não é: a modernidade dispensa rolinhos e carícias nos pêlos - prefere peitos passados a ferro, sedas de nus, e talvez até pilas esfoliadas. ai que miséria.

sábado, 17 de março de 2012

afinfar

se juntarmos, durante a preparação, mais leite do que água o resultado será pataniscas de bacalhau mais fôfas e deliciosas. é só. é a experimentar que se sobe o degrau. ou, então, é a experimentar que se afinfa o bacalhau.

sexta-feira, 16 de março de 2012

a insustentável leveza do parecer

um parêntesis no meio de uma crise existencial - as crises existenciais não são aquelas em que questiono quem sou de onde vim e para onde vou mas as que me reforçam a certeza de quem sou e de onde vim e para onde quero ir pela incerteza de poder ser quem sou e ir para onde quero, a primeira foi há cerca de sete anos e isso leva-me a concluir, não sei se prematuramente mas com a certeza intuitiva com que me habituei a viver, que entro em curto-circuito ao fim de ciclos de sete anos - foi uma oferta bem atrasada de aniversário em pura, total, poesia: um bailado russo em lago de cisnes no edifício mandado construir pela companhia de seguros garantia: o coliseu. não importa que os bailarinos não estivessem perfeitos em tempos nem em equilíbrio, estariam uns e outros (pode ser) igualmente a completar o pacote dos sete anos de vida, mas a magia da leveza, não só em pontas, da ponta dos pés até ao tecto alto, bem alto, que me transportou para o bico dos sonhos de olhos abertos. e cada passo, como se o andar fosse (e é) enfeitar cada movimento e procurar em cada um o mais leve respirar e a mais intensa concentração de amor; como se a vida se fizesse em cada arfar de melodia e se cada som tocasse violino para cada movimento e se a orquestra dançasse para nós e eles, os bailarinos, tocassem movimentos para ela. e tudo se confunde, entretanto, no palco da poesia: os bailarinos sou eu e eles são a orquestra e eu sou as pontas dos graves e dos agudos e ela dança vestida de tule.

e o parêntesis, em aberto, transfoma-se no livro e depois na colecção de livros e, enfim, na livraria privada. e quando chega a hora de fechar o parêntesis - talvez não passe de isso mesmo, penso, de um parêntesis no meu pensamento que se recusa a aceitar que a minha vida não pode ser uma livraria mas apenas uns e outros parêntesis -, a leveza contagia. contagia tanto que já dormi e ainda julgo que a minha vida é, como não deixam que seja como eu quero, leve.

tenho mesmo de partilhar

o mano mais gato do mundo. ai! como está garantida a minha satisfação! :-)

(meninas, não se esbarrem na estrada: os outdoors andam aí)

quinta-feira, 15 de março de 2012

escândalo

escândalo. dizem-me ser um escândalo recusar a visita de uma prima que considero uma estranha; que é um escândalo considerar uma estranha alguém que tem o meu sangue. tretas, tudo tretas, não é o sangue que nos faz sentir proximidade e vontade de estar e de receber. não quero saber se é prima, se pegou em mim ao colo ou se gosta mais de batatas do que de motas, e não tenho vontade, nem curiosidade, em vê-la e ouvi-la. não faço fretes e isso é, dizem-me, um escândalo.

(pois para mim escândalo é o telefone desligar-se, sem me dar aviso prévio nem explicação de silêncio, e eu não me lembrar do pin. e ainda me ameaça, o cabrão, dizendo-me que só tenho mais uma tentativa. isto, sim, é um escândalo.)

quarta-feira, 14 de março de 2012

depêlação da areia

bem sei que talvez nesta altura seja um desejo de luxúria mas as areias das praias deviam ser tão asseadas fora como dentro da época balnear pois as areias são assim uma espécie de pernas da água que são precisas para andar até molhar e as pernas querem-se sempre sem pêlos ou não fossem os pêlos as ervas daninhas da maciez dos jardins.

segunda-feira, 12 de março de 2012

fura-nos fode-nos faz-nos

soltem-se as borboletas da caixa
deixem-nas, zonzas, voar
como se o tempo fosse demente
e estridente
e carente
assim como voam os mosquitos celestes
as pragas dos cheiros campestres
já que o amor não é docemente
e amar é sempre contra a corrente
com força
com a força da rocha que se agarra ao mar
e do rebanho solto no monte
raízes debaixo
por debaixo
das sete saias da seiva de viver
o amor é um bicho que pica
fura-nos
fode-nos
faz-nos
para não nos deixar morrer.

generalidades atemporais

um casal, quando quer engravidar, esforça-se ao máximo em iteração sexual. curiosamente, este reforço traduz-se em aumento do tempo do resultado positivo.

(não há mistério: a energia sexual, vernácula, é espontânea e não usa cartão de ponto.)

domingo, 11 de março de 2012

generalidades atemporais

quando se tem frio, e se pode, mete-se as mãos no meio das pernas.

(não há mistério: a virtude é quente.)

o azeite no sapato

já não me lembrava de me chocar com isto, quero dizer com aquilo, de me cruzar com um homem e de fixarmos o olhar e eles, os olhos, irem descendo à procura de mais pontos, os olhos também buscam a completude, e de gritarem socorro! acudam! quando chegaram aos pés. é curiosa a força que uns sapatos azeiteiros, o que categoriza o azeite no sapato é o óleo do cabelo nos pés ou as nódoas no peito de uma camisa ou a conversa desinteressante e ordinária de um cérebro, tem num primeiro impacto quando tudo o que se conhece é o que se vê. e depois, quando aflitinhos, os olhos, começaram a subir à pressa para voltarem a apanhar o comboio do regalo, molície de ver, o homem já não tem ponta por onde se lhe pegue: como se a um olhar de sol, ofuscante, se seguisse uma imensa trovoada com chuva grossa. bem visto, o que eu quero dizer é que há banhadas assim.

sábado, 10 de março de 2012

paradoxo

o universo não gira à minha volta.

(o que não o impede de se cagar todo mesmo em cima de mim)

sexta-feira, 9 de março de 2012

lógica e emoção

os homens são, na generalidade, racionais e as mulheres são, cada vez menos, cada vez mais uma minoria, emotivas. e a lógica, a voz da razão, é uma derrubadora, uma vencedora. e a vida é, em deserto de emoções, logicamente uma campeã que esconde e manipula a verdade. importante mesmo é completar a lógica com a emoção. um homem de cinquenta anos e uma mulher de vinte apaixonam-se. passa tempo.
o homem, pura lógica, diz que o que está a acontecer é que, na verdade, ambos têm quarenta anos porque ela, com a sua jovialidade, fá-lo sentir-se dez anos mais novo e ele, pela sua sabedoria, fá-la sentir-se dez anos mais velha. a verdade, a do amor, a única que conta, está a ser escondida com absoluta lógica verdadeira. 
ela. já ela diz, simplesmente, que se amam.

quarta-feira, 7 de março de 2012

oitenta

os olhos são para pôr na mesa: de quatro se faz oito como se o mundo em placenta - não há alegria maior, venham ver, do que deixar o oito e abraçar o oitenta.

um sonho de carcaça

aqui não há desta invenção: o molete é pequenino e tem de se comer dois ou três para saciar o papo. nas carcaças deve caber um ovo estrelado, sem ser encolhido, como se a exibir a cauda do céu. e uma fatia de fiambre inteira a servir de tapete rosado e mais duas de queijo a derreter-lhe, ao miolo, o coração. que maravilha.

terça-feira, 6 de março de 2012

da chávena e do prato

dizia-me ela, na cozinha dele, que faz um esforço de vez em quando: a conjugalidade não lhe faz qualquer sentido, duas camas à moda de hotel é o ideal; o ressonar, o mexer, o hálito da boca de cima (e de baixo), os pêlos curtos e redondos no chão, o cheiro da urina; a roupa suja, o jantar diário. haver, portanto, toda uma separação de males e restar os momentos bons, os que considera bons, que se resumem, bem visto, ao sexo visto que o Q. não é homem de conversas- tampouco de boas conversas. e se ele pensa igual, digo eu a avaliar pelo que vejo, no nojo que lhe mete ver o corrimento nas cuecas dela; o varejo que ela lhe faz quando se levanta enquanto ele ainda dorme e o barulho do secador a entrar pelos lençóis; os pensos higiénicos enrolados no balde umas vezes durante o mês; o que tresanda quando abre a tampa da sanita como se comesse rosas, ele, e ela ovos podres com açucar.

objectos. não passam de coisas, de duas coisas, que se esfregam uma na outra em troca de uns ais sonantes e talvez muitas vezes fingidos, as mulheres-objecto que utilizam homens-objecto costumam fingir essas coisas para ficarem com o argumento dos momentos bons activo, e que servem de despeja-colhões mais ou menos certas e estáveis. que deserto de auto-estima , senhor dos amarrados.

(ora se o que é importante começa depois do sexo e o sexo só faz sentido ascendente com importância concluo, então, que se alguns sexos verbalizassem pensamentos diriam o seguinte dos seus cérebros: tens um qi típico de anedota, da relé ordinária, da chávena e do prato - ai filha tens um cu tão quente. deprimente, miserável, penoso, decadente. oh! lord!)

segunda-feira, 5 de março de 2012

memória do entroncamento

o hospital maria pia vai encerrar. tenho uma memória bem nítida lá e uma outra associada que não sei explicar: a minha primeira consulta oftalmológica, em olhos alternadamente tapados e letras a verbalizar em alta voz, e, depois, a tal memória do entroncamento em que passávamos, eu e a minha mãe, por uma casa de banho pública e dizia-me ela que o George Michael tinha sido flagrado a fazer sexo oral a um estranho em uma. é mesmo estranho, isto, visto que, por essa altura, às tantas o gajo ainda nem sequer gostava de lamber pilas sem rosto em cenário de urinol peçonhento.

canta para espantar os males da consciência, o filho da puta.

quem sou eu para julgar quem quer que seja - mas tenho uma, não mera mas forte, opinião baseada na minha intuição: o Paco Bandeira é um grande, enorme, filho da puta culpado pela morte rápida da primeira mulher e da quase morte lenta da segunda. só um grande, enorme, filho da puta culpado sorri perante tal acusação e canta bem a vida como se com vida desse o bem a viver.

domingo, 4 de março de 2012

em tule

como é belo o véu na geometria do losango.
os véus, em tule esculpidos, são sempre belos
ai! como ela sabe!
assim como sabe que as linhas da vida não são rectas
misturar losangos com véus
sabor de doçura esperta
estampada nas portas.
venham ver a costureira das rendinhas do amor
em losango de tule - ou seda ou cetim
ou até em algodão de traje, que importa, se amar não é ultraje?
amar é que é festim.

sábado, 3 de março de 2012

generalidades atemporais

quando perdemos alguma coisa que nos faz falta empreendemos todos os esforços para encontrá-la e, paradoxalmente, quando a encontramos já não precisamos dela.

(não há mistério - não precisamos porque já a substituímos)

sexta-feira, 2 de março de 2012

queques mulatos

ingredientes para dez queques:

100 g de margarina
150 g de açúcar
3 ovos
1 colher de sopa de cacau em pó
3 colheres de sopa de leite
150 g de farinha
1 colher de sobremesa de fermento em pó

bater a margarina com o açúcar até se obter um creme esbranquiçado e juntar os ovos inteiros, um a um, continuando a bater. entretanto adicionar o cacau, previamente dissolvido no leite, misturar bem e, finalmente, juntar a farinha peneirada com o fermento. é tempo de encher, com a massa, caixinhas de papel frisado, até 2/3 de altura, e levar ao forno que já deve estar moderadamente quente (180º C) durante cerca de 25 minutos. 

mete o palito e vê se já sai limpo. sim? então polvilha com açúcar e ataca com alegria. e a banda sonora pode ser esta:


dicefalia

a palavra do dia do priberam é dicéfalo e vem mesmo a calhar: o mundo está cheio de monstros com duas cabeças como se cada cabeça fosse a representação de dois opostos que orgulhosamente fazem questão de exibir ou esconder. o caso mais flagrante de dicefalia que tenho vindo a observar nos últimos tempos, por evidência de factura, cabe no homem que faz a contagem da luz.

quinta-feira, 1 de março de 2012

começo de fim

três meninas e um menino, todos com dez anos de idade, barafustam uns com os outros: elas defendem-se entre si e ele tenta defender-se delas que, aguerridas, exaltam a rudeza do rapaz que lhes oferece porrada e as insulta. pergunto-lhe se há alguma razão pertinente para o fazer. responde-me que as raparigas são burras e que o irritam. pergunto-lhe se pelas mesmas razões o faria com os seus colegas e diz-me, por saber que seria sovado, que não. pergunto-lhe se tem irmãs e como reagiria se as visse serem agredidas daquela forma - diz-me que não. sento-o no meu colo e trato-o como a um bebé que não tem consciência: envergonha-se nitidamente. depois faço com que me olhe nos olhos e volto a questioná-lo: gostavas de saber, ou de ver, que o teu pai bate na tua mãe quando simplesmente não concorda com ela ou acorda mal disposto? deita os olhos ao chão e diz-me que não. faço-o repetir que não voltará a comportar-se como um búfalo raivoso com as colegas e pede-lhes, por iniciativa própria, desculpa. 

parece-me um bom começo de fim, aos dez anos, perceber o monstro que há dentro dele.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

C.Ronaldo: técnico de ac.

por insistência andei, um dia destes, de metro pela primeira vez e confirma-se: o ar sem renovação, sufocantemente respirado e  partilhado por que dezenas de outras pessoas, muitíssimo condicionado é de uma porcaria pegada que não tenciono repetir. que nojo. arrisco dizer que o ar está para o metro como o outro, o do ai se te pego, ai ai se te pego, está para a música. depois, no fim, vai-se a ver e o C. Ronaldo não passa de um técnico de ac. 

( uma corrente de ar, tão bom)

janelas. dunas. janelas-dunas. o mundo precisa - não de casulos de bactérias, ora em silêncio ora sonoras - de arejamento natural e ventilação constante.




terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

o meu gorilinha amoroso

não é agradável sermos perseguidos por alguém, por um homem, num carro qualquer, durante quilometros a fio. sinais de luzes, sinais de mãos, sinais de boca - tudo sinais que muito mais do que nos levarem ao medo, levam-nos à vontade descontrolada de parar o carro e sair e usar e inaugurar, finalmente, o bastão de madeira maciço pousado mesmo ali ao lado do travão de mão. controlar a vontade, cantar para espantar o medo e prosseguir até à casa de uma amiga. estacionar à porta e sermos confrontados com o perseguidor cuja teimosia prevalece. algumas palavras furiosas e uma simulação de ligação à polícia fazem com que se afaste. mas chegar a casa e, sem contar, ver o king kong a dançar no carnaval do rio faz milagres: o milagre do gorila, tão lindo, amoroso, num esgar contagiante de contentamento e alegria. viva o king kong qu'adoro!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

e se...

a academia não tivesse decidido, em 1950, que os óscares não podem ser vendidos a terceiros, estou certa que os europeus, em assaltos, lhes chamavam um figo. talvez por essa razão a designação viesse a ser alterada para cerimónia dos figos e um novo título sugerido para melhor película de anos vindouros pudesse vir a ser "e tudo os figos levaram". também o peso e altura passariam a ser inferiores: um quilo em vez de quatro para dez cm dos trinta e três actuais. o figo leve e dourado passaria a valer, não duzentos dólares, vinte euricos. e quem reunisse uma dezena deles poderia dizer que tem uma cesta de figos em casa. 

(que maravilha de alusão à fruta que é, mesmo ali debaixo da árvore, de arrancar, abrir e lamber.)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

da completude

“O fim da arte superior é libertar” ? sou eu quem coloca a interrogação ao dito de Pessoa, tema escolhido para dar o mote da segunda mesa do Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim. faço um balanço do que foi dito e reconheço a superioridade da ideia de que não importa se a arte é uma forma de libertação mas, antes, uma forma de liberdade. é que este segundo apontamento é bem mais abrangente e, englobando necessariamente o primeiro, completo. não tivesse eu o vício, talvez estranho e dificilmente feliz, da completude.

visão com falta de ver

 o que têm em comum estes óculos e estes é, precisamente, uma visão de futilidade necessária.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ao fundo achados

o alto minho é o local ideal para fazer da existência das cabras e das vacas um negócio, não para a indústria das carnes ou dos lacticínios ou das peles, a fundo perdido. nem sei bem se esta designação, tão certeira, ainda se utiliza. talvez não porque as gentes não gostam de ver a descoberto aquilo que realmente são. e são fundos, de facto, os que são aprovados para pastos perdidos - pastos que não tendo outro objectivo que não a sussessiva capitalização de capital sem sequer haver um mísero investimento em vedações e limitação do espaço - sim, tudo tem de ter um espaço para respirar se entendermos respirar como evolução e não mero movimento de manutenção - para o efeito. entristeceme, e escrevo tudo junto à espanhola para ter mais força, a ganância e o viver de bolso. e se eu pudesse, passava a seguinte mensagem a cada vaca e a cada cabra dos montes: coices e cornadas sem parar nas vidas de bolso até perceberem que o mundo precisa, ao fundo achados, de vidas nas mãos e nos pés, dos corações.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

kizombar

as orelhas da branca de neve

excelente post do Zé António. sabe-se que os contos de fadas têm profundas interpretações freudianas e junguianas para explicar o inconsciente colectivo. e o pormenor da orelha, que tão bem nota, pode ser explicado como uma sátira: a madrasta, uma bruxa perdida, por estar presa à vaidade, anda na busca da beleza eterna, enganada quanto à natureza do “Elixir da Longa Vida”. pode ser que seja uma espécie de sátira invertida que lhe interessa, à orelhuda, conservar. digo eu.

rei e rainha

de tempos a tempos recortado, mais e mais, segue o rio para o mar - mas é na foz, entre carícias e deleite, que os fluidos molhados de fundem: até poderia ser gay, o douro, beleza de ser igualmente garantida, mas é dela, da foz, rei: e faz dela a sua rainha.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

empanadilhas de atum em sorrisos: já está.

para fazer a massa colocar a farinha e a manteiga, previamente cortada, aos cubinhos ou noutra forma mais gira ou mais prática, numa tigela; misturar com a ponta dos dedos até a massa se misturar; juntar os ovos e a água aos poucos e amassar até ficar em bola. deixar a reservar no frigorífico, por trinta minutos, dentro de uma tigela polvilhada de farinha.

enquanto se aguarda o sono da massa, refoga-se o atum e as delícias com cebola, alho, tomate, salsa e delícias do mar - tudo bem temperadinho para servir de recheio.
nos entretantos, retira-se o tabuleiro do forno e polvilha-se com farinha enquanto o forno vai aquecendo a 180ºC - ou se fôr numa forma de silicone, melhor, não é preciso polvilhar (o silicone não arde porque se ardesse havia muita mama a arder).

finalmente, estende-se a massa com o auxílio de um rolo na bancada polvilhada de farinha e cortam-se tiras compridas (ou discos caso prefiram em forma de rissóis). depois é só dividir o recheio de atum e delícias pelas tiras de massa e pincelar as bordas com leite e fechar em rectangulos, pressionando-as com os dentes de um garfo para unir e decorar.

colocar as empanadilhas no tabuleiro, pincelar com a gema batida, e levar ao forno por quarenta minutos, a 180ºC. depois, é só deixar arrefecer para os sorrisos darem uma trinca.

Ingredientes:


Massa:
700 g de farinha de trigo
250 g de manteiga (ou de margarina vegetal)
2 ovos
1 dl de água
2 colheres (sopa) de leite
1 gema
farinha q.b.

Recheio:
4 latinhas de atum ao natural (aproximadamete 500 g)
delícias a gosto
4 tomates maduros
1 cebola pequena picada
2 dentes de alho picados
salsa picada q.b.
sal & pimenta
azeite

que vergonha de justiça

um sem abrigo é condenado à prisão por ter roubado um polvo e um champô. e o avô que matou o pai da neta, arma numa mão e criança na outra, está a aguardar julgamento em casa e a viver com a neta que por sua vez vive com o assassino do pai. e os avós paternos da neta não a vêem desde que o avô materno matou o seu filho, pai da neta. ao avô assassino calhou-lhe o brinde do bolo-rei: matou o genro que odiava e ainda ficou a viver com a sua filha. e agora, o avô assassino está em assassinato contínuo e diário da memória do pai da neta por ser ele a figura paterna que vive com ela. que vergonha que eu sinto por não poder fazer nada.

há que tempos não ouvia isto. de acordo com a Curadoria do JPC não me parece que seja uma colagem nem paródia nem pastiche videomusical. não sei, mas gosto: sabe à época da novidade.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

de repente: aceitar.

as decisões difíceis tomam-se num repente, o que é importante acontece sempre de repente, quando aceitamos que Ele, o gestor da energia que nos faz existir (e iludir que afinal somos nós que nos fazemos Deuses), não nos dá o que queremos mas o que precisamos. e a fé é continuarmos a acreditar que o que precisamos há-de ser como nós queremos.

mulheres & flatos

no delito de opinião, não me apetece colocar link, num post sobre uma declaração do cardeal a favor do aumento do tempo para as mulheres estarem com os seus filhos, quem quiser que procure, parece que acham graça ao meu estilo consciente do que é ser mulher na sua completude. ao riso das senhoras que querem ter pilas, pedi para acrescentarem flatos. e, agora, que se governem.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

da hermenêutica do riso e da vontade

suponho que não terei aquilo que quero, em relação a um assunto, por ter mandado o seguinte recado, por telefone, ao intermediário do negócio: faça assim - se amanhã o senhor tornar a desmarcar a visita diga-lhe, por favor, que se suicide. a questão está na interpretação do riso que não segurei quando me apercebi do que disse em parceria com o riso do intermediário que ouviu o que eu disse. como há dementes em todo o lado, talvez o intermediário dê o recado de forma literal. a minha dúvida não está na eventual consumação literal do recado, até porque acabava-se mesmo a possibilidade daquilo que eu quero, mas no desvio ao negócio pela hermenêutica maliciosa ser exactamente proporcional à minha vontade explicita no recado. só aguardando e, nos entretantos, rir-me, à fartazana, de mim.

cordas

dos telhados vê-se a luz: as pontes são cordas, esticadas, que unem dois pontos de abrigo, que aos olhos dos homens seduz.

filhos de mera ejaculação












e quando consegui recuperá-la, finalmente, foi para o lixo.

desde os tempos de andar na Carlos Cal Brandão que me apaixonei pela música do Bryan Ferry e dos Roxy Music - tudo era pretexto para ouvir a cassete que a minha irmã uma vez me ofereceu. o efeito electrizante, apenas comparável a duas ou três coisas que não vêm ao caso, que me provocava - e provoca em outro formato, agora - acompanhou-me sempre e quando comecei a conduzir aquela cassete rodava tanto, tanto, que chegou um dia, talvez há sete anos, que ficou encravada, metida lá para o fundo do buraco do rádio, e lá ficou. confesso que também nunca forcei a retirada - bastava uma martelada bem dada -, talvez pela certeza de que a fita, cansada, recusava-se a correr. e ontem, não sei bem porquê, decidi carregar bem fundo o botão e ela sem qualquer esforço saiu. e, tal como sempre pensei, não toca. mas veio lembrar-me, a cassete que foi para o lixo, de que é preciso ouvir, continuar a ouvir, sempre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

conversa da água da torneira

ele: estás a dar outra calinada - a água só ferve a 100º.
ela: anda comer.
ele: já liguei dezassete vezes e ainda não consegui falar - estou a trabalhar!
ela: viste o caso daquele que afinal é pai da neta?
eu, em excurso mudo: (não há água que vos una quanto mais que se ferva - vão-se ferver)

possibilidade

acordar com a possibilidade de trocar um t2 por um t0, sem tristeza e sem vontade de chorar, não é bom: é óptimo indício de prosperidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

é de pequeninos que se castram os pepinos podres

nunca tendo apanhado uma simples(?) reguada na escola, causa-me fervura no sangue quando ouço crianças dizerem que apanharam beliscões nos braços, coques na cabeça, puxões nas orelhas ou estaladas no rosto. mas mais fervura ainda causa-me a indiferença dos pais perante estes abusos. tinha eu doze ou treze anos quando o meu irmão mais novo, na primeira classe, chegou a casa com as orelhas roxas de tanto que foram puxadas pelo professor Costa. e foi nesse, e a partir desse, dia que a tal fervura despoletou. desci a calçada, árvores arrepiadas ao verem-me passar, entrei na sala de aula onde ele ainda estava a arrumar a mala e disse: sou irmã dele e vim dizer-lhe que foi a primeira e última vez que lhe tocou, com maldade ou intenção de castigo, no corpo ou na alma. na verdade, nunca mais o meu irmão se queixou nem apareceu com resquícios de abuso de autoridade. e ainda hoje, se o professor Costa se cruzar comigo lembra-se de mim e das minhas palavras. talvez seja mesmo de pequeninos que se castram os pepinos podres; talvez nesse dia ele tenha aprendido mais sobre ensinar do que durante todos os anos de professorado. e o meu irmão aprendeu a dizer-me sempre quando se sentia infeliz - pela garantia de que nunca lhe mostraria indiferença.

desde a folha até à semente



espetada de flores, branco de sabores, sem estar reservada ao jantar: flores assim abraçadas, juntas para saciar, só podem ser agres e doces de sempre: petisco de vida desde a folha até à semente.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

demagogia de pseudo-macho

deparei-me com um homem daqueles que só aparecem nos filmes de humor: dentes cerrados e olhos, por detrás dos vidros, que fixam sem piscar. o assentir com a cabeça é constante e a palavra obrigado, muito obrigado, sai-lhe cinco vezes a cada dez segundos. indica-me a saída e quando eu já me dava por aliviada por sair dali, ei-lo. sem ser como uma sombra - porque as sombras mostram-se e são grandes e escuras e bem visíveis aos olhos -, como um pássaro que por cima acompanha sem fazer barulho e sem se fazer notar, na suas palavras preferidas e, por iteração, irritantes: muito, obrigado, muito obrigado. 

fiquei a pensar, entretanto, e não costumo enganar-me, que, no meio dos outros quatro, aquele tipo de homens simpáticos mas machistas em que se nota que dizem uma coisa quando estão a pensar numa outra completamente diferente só para conseguirem parecer que valorizam e que estão de acordo com a interlocutora fêmea e levarem a cabo o projecto que de outra forma não há, o ajeitadinho-sossegadinho-obrigadinho destacado para me acompanhar durante um dia inteiro é o único que está a ser sincero, por mais que a expressão corporal dele me irrite, e talvez agradeça tanto apenas por sentir mesmo e muita vontade: afinal de contas, e pelo menos durante um dia inteiro, vai livrar-se dos outros marretas mentirosos e machos à pressão, em demagogia, que não acham piada mudarem de opinião - ainda que buriladamente forçada - à custa de argumentos de uma fêmea. são, bem visto, uns vendidos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

psicologia nos recibos

os recibos verdes electrónicos foram criados para, supostamente, aumentar a rapidez e diminuir a burocracia e o papel. mas se as entidades, além do envio por email, exigirem a assinatura na respectiva impressão isso é o quê - reforço positivo ao prestador do serviço? cambada de ignorantes.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

não à anulação dos peidos& companhia

o marido de uma amiga, um quase amigo apenas por arrastamento por casamento, diz que são as pequenas coisas - como ressonar e peidar - que acabam com as relações. bem visto, e pensando um pouco sobre o assunto, não será de todo mentira: é que tenho a impressão de que se as gentes se vissem ao espelho cada vez que comem ou cantam ou sexam ou libertam a biologia, fugiam de si. ou seja, as nulidades que supostamente acabam com as relações reflectem a nulidade de quem as percebe como motivo para acabar relações - a nulidade que são por não se permitirem ser com espontaneidade e, obviamente, a da não permissividade do ser do outro.

casa-ninho

tenho quatro piriquitos a viver num prédio de cinco andares, em open-space, o que significa que lhes sobra uma assoalhada para vingarem as tolices que lhes passa pela cabeça. e mal a luz do dia rompe de mansinho eles fazem questão de me dizer, da sala onde quentinhos adormecem,: queremos ir para o terraço menina. eu eu arranjo um pretexto qualquer, o mais frequente é pensar que tenho uma bexiga sôfrega por esvaziar, para dar-lhes luz. há já algum tempo que verificava penas adicionais no chão e algum frenesim na terra dos canteiros mas sempre atirei com as culpas para a dona, por direito adquirido por antiguidade e por paixão, da maior fatia do meu coração - a cadela -, visto que a peixa Clotilde em águas compenetrada estaria fora de questão, e hoje constato a injustiça que tenho vindo a cometer: são os resquícios de comida e da harmonia que eles deixam durante um dia inteiro que atraem as pombas para o terraço. e são também elas que com meiguice descontrolada remexem a terra. só não me parece pertinente que comam e caguem logo de seguida, não por ter de limpar, por ser sabido que as suas secreções são pouco ou nada saudáveis a narizes curiosos como o da Dona Cadela Valquíria. posto isto, não posso deixar de dizer em contentamento desmedido que a minha casa é um verdadeiro ninho de amor incondicional.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

o mantra do bombo

não sei bem por que raios e coriscos quando se toca bombo, mas ainda vou investigar, o mantra de sons é sempre o mesmo: pom, pom, pom. pom, pom, pompom. pom, pom, pom. pom, pom, pompom. e todos os cães ladram, e todos os pássaros resmungam e os carros buzinam e as gentes aglomeram-se para ouvi-lo tocar. e quem, finalmente, dorme - acorda. talvez tenha algum significado especial o pom, pom, pom. pom, pom, pompom que eu (ainda) desconheço; talvez seja uma espécie de flauta, sem ser flauta, mágica que ao invés de encantar, porque o encantamento não traz desassossego à natureza - só à alma-, desencanta. de uma coisa eu já sei: a expressão corporal de quem carrega um bombo, que é ao peito, é de desespero e de sacrifício - tal e qual a expressão de quem carrega um pom, pom, pom. pom, pom, pompom nos ouvidos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

telefones

tenho saudades daqueles telefones fixos antigos que quando tocavam era por coisa importante, como se fossem sinos. conheci um que era dourado, todo rendilhado, e que era preciso mais jeito do que força para discar os números. depois era um preto - adorava passar-lhe uma camurça com ajax para virar espelho. esses, sim, eram verdadeiros telefones, com uma presença forte e a ocupar espaço. o que é bom ocupa espaço.


monólogo das febres

não sei bem se a gripe traz efeitos não previstos nas outras pessoas mas em mim isto vira tudo: não é suposto apanhar frio mas não consigo estar de janelas fechadas; é suposto ficar de cama mas a cama durante o dia sufoca-me; parece que dá sono pelo cansaço dos olhos mas a mim troca-me as horas: às quatro da manhã estou a tomar o pequeno almoço, às sete ou oito estou a levantar-me para depois às onze almoçar e às vinte estar a dormir. mais hora menos hora é assim - um corpo que se arrasta a tresandar a vicks, aquela pomada em boião que cheira a mentol potente e se espalha nas fossas e no peito. bem sei que todos sabem o que é mas tive mesmo de fazer uma descrição para valorizar este cheiro, este pingo, esta respiração cansada e estes espirros tão fortes que de cada vez que se soltam, estremeço e mijo-me toda. até pode parecer brejeiro mas é a mais pura urina. quero dizer, a mais pura verdade: estou num canho. talvez agrave a descrição se disser que não caía numa cama há anos. suponho que deva ter sido do entra e sai em locais de ar condicionado na semana que passsou. rabugenta, sim, estou, porque trabalhar não deveria dar para ficar doente nem piegas nem preguiçosa. deixa-me mas é estar calada, por recear que o outro ouça, o primeiro, porquê?, se a palavra do homem vale bem menos do que a minha que estou a falar sozinha? homessa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

obrigada, jaa.

uma surpresa boa, muito boa.

filmes

tem acontecido amiúde apanhar um filme que sei que nunca vi mas que lhe conheço a história, uma espécie de retalhos de outros filmes que, em detalhes, se misturam. e sabe tão bem adormecer no decorrer da história assim como sabe mal o espaço carcomido da imprevisibilidade.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

cem glórias

como se na seda encorrilhada passasse um ferro sem vapor, escondido o vigor, paciente no seu jeito de ser, ouvem-se do silêncio histórias, dias contados a minutos de glórias - cem glórias, a morrer de riso, de rir a viver.

estou sim? só há destas? está bem, calham-me a mim.

tenho a impressão que posso assemelhar mulheres-mães de fresco a homens-militares de fresco, com as primeiras tenho pleno conhecimento presente de causa e com os segundos já tive, no passado, altura da obrigatoriedade da tropa para todos os amigos rapazes: tantos umas como outros só sabem falar do mesmo, qualquer assunto que se puxe vai dar à mesma estrada. e todo o interesse que o assunto em destaque, tanto numas como noutros, possa ter - é absorvido pelo desinteresse que suscita o tal interesse saturado. a análise que faço é tratar-se de muita insegurança e medo de falhar, como se pensar e fazer e sentir várias coisas ao mesmo tempo seja missão impossível e incontornável. (eu) olha, a tarifa bi-horária anda a causar polémica - parece tratar-se de fraude porque não está a ser praticada, estou a dizer-te porque sei que tens. (ela) ai é? por acaso ainda não olhei para a factura. o Gonçalinho quando chegou a casa esteve uma hora a comer papa, vinha com fome. (eu) então, chegaste a ver adjudicada a proposta que tanto querias? (ela) ainda não, esta noite o Gonçalinho chorou e tive de o trazer para a minha cama; tem estado muito frio mas eu não gosto de lhe vestir meia-calça. tenho de desligar, está na hora da papa. e passam-se quinze dias até haver novo telefonema. piadar será dizer que o Gonçalinho, a continuar a comer assim, acabará com obesidade mórbida. piadas à parte, duvido que estas mulheres continuem - partindo do pressuposto de que alguma vez foram - interessáveis aos seus homens. o cúmulo do desinteresse é quando me pedem para eu escolher e comprar, por elas, um presente para eles. gravidade no limite é quando descontraidamente lhes dizem que se não gostarem eu posso trocar. e o mundo, o delas, reduz-se - não à beleza das fraldas e da maternidade e do amor incondicional da família - ao sustentável peso do egoísmo mascarado de maternidade e de conjugalidade. outro dia qualquer, solidão nua e culpas - atribuidas aos seus homens- em punho, telefonam a chorar. uma boa amiga sabe ouvir durante horas mesmo que abomine telefones nos ouvidos. e quando chega, finalmente, aquela parte do já me sinto bem melhor e então tu como é que estás, é hora do tenho de desligar porque ainda tenho de tomar banho e depois acordar o Gonçalinho para lhe dar a papa a ver se dorme a noite inteira. beijinhos, quando tiver tempo, ligo!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

jubilo eu

a propósito, mas sem qualquer propósito de ser a propósito, do jubileu de diamante da reina, lembrei-me que esta seria a altura indicada para a Imperial lançar uma nova variante da marca, em lata de 460g, não para fazer jus à doçura de Isabel, para engordar os ingleses e igualmente as nossas receitas.

Antoni Tàpies:

é sempre bom quando vozes, a tua como tantas outras porém anónimas no mundo, se erguem contra as ditaduras. mas arte, para mim, é outra coisa e não te reconheço talento.

(posto isto não tenho por que lamentar a tua morte - é uma como tantas outras na vida. bon viatge. )

esquina do céu

desdobram-se, pouco caiadas, as paredes do andar, enquanto no cimo, no alto, na esquina do céu, ela respira de vaidade e diz, pensamentos por dobrar, o que eu andei p'ráqui chegar.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

doodles

nunca tinha dedicado a minha atenção, quando uso o google, a ver o que seria o estou com sorte mesmo ao lado do rectângulo do pesquisar. hoje de manhã, decidi começar a explorar e dei com os olhos nos doodles. gostei tanto - há tanta variedade de formas e cores e temas que até parece, apesar de não ser, interminável. e agora é para ir descobrindo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

(cavalo alado)

invento o mercado do ar
da minudência
onde a beleza que carrego nos olhos apregoa alto, bem alto, em voz já rouca e desafinada
que o ar da minha barraca é o melhor da temporada.
e do particular para o geral o ar emudece
esgazeado e cansado
não querendo ser, de minúcia,um burro
depois de saber o sabor do que é ser um cavalo.
(um cavalo alado)

corredor

estende-se em calçada, o corredor da vida - descendente de amarelo a torrar, comprido de luz ao peito, de fininho ao ledor, onde o céu é senhor doutor juíz: ora de dias de dano, ora de ledo proveito.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

m. de macaca

incrível é como alguém consegue escrever algo assim. poderia começar por minha querida mas não vou à bola com mentiras e fico com azia só de pensar que o poderia mesmo assim entender, a tal m.. fico a aguardar que aprove o meu comentário, lá no seu sítio dos macacos - ou se o lê, engole, e enche de vergonha.

planear sem ressalvar vai dar ao intestino

um mapa de planeamento de actividades tem tanto de profissional como de escorregadio - prever, com antecipação, o decorrer de meses que não apenas dependem da nossa parte do trabalho poderá ser um bom argumento de objectivos não atingidos. o melhor, mesmo, será colocar uma notinha bem gorda de que está sujeito, durante o tempo de implementação, ao número de revisões que forem necessárias. será esta, pois, a única forma de não passarmos por sermos um membro, infiltrado, do governno que tem mais olhos do que barriga e no fim, vai-se a ver, só fica o intestino.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

a justiça precisa de champô para lavar os colhões

o que é isto, um sem abrigo condenado a pagar duzentos e cinquenta euros por roubar um polvo e um champô ou, se não pagar, vai preso? seria, o champô e o polvo, para vender e realizar capital para acumular numa conta na suíça? que pena aplicar, então, a quem roubou, ainda há pouco na época do natal, o subsídio de milhões - talvez um pequeno trabalho comunitário, uma acção de sensibilização aos cidadãos para perceberem que a taxa de desemprego no auge é um mero exercício, não simulado, de evacuação? 

estou consternada. apetece-me sair já, de imediato, para roubar um champô e um polvo só para me mostrar solidária com a fome e a higiene - necessidades básicas por satisfazer, em crescente, no país.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

a culpa é sempre do fibroso

em violino, toca-se a música rompida dos muros - onde se deitam, erguidos, surdos, vozes secretas, alegrias na mão. e a culpa é sempre do fibroso, bate- que- bate-que bate, muito pendente, sangue em circulação.

estreito do peito

pingos
são pingos
que sobem aos cimos dos pêlos do peito
pequenos passos
marcha
rumo ao aprumo do espaço tão estreito

dica de amêndoa doce

descobri uma coisa fabulosa: o óleo de amêndoas doces, produto do melhor que há para hidratar, acessível em qualquer loja da esquina ou super ou hiper-mercado, cujo preço anda a rondar um euro, resulta muito bem nas pontas dos cabelos se vertido para um frasquinho do tipo doseador. faz assim: quando o sérum acabar, sim aquele sérum que custa os olhos e o nariz e a boca da cara, verte de um frasco para o outro e já está. experimentei ontem e já só passo a usar deste - os cabelos acordaram rebeldemente macios e felizes.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Napa-lhe

o Napo agrada a miúdos e a graúdos - o Napo é uma poderosa ferramenta de auxílio à construção de uma cultura de segurança em qualquer sector de actividade: napa-lhe em casa, napa-lhe na escola, napa-lhe a trabalhar - é, sem parar, napar ao acidente.

(e eu prometo que tudo começa a mudar - tudo o que, sem contar, acontece num repente.)

ouvi ontem pela primeira vez. primeiro não se estranha e depois vai-se entranhando: é canela com mel.